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  • Henrique Correia

A capital "mergulha" na "calamidade" sem saber por onde (re) começar

Atualizado: 17 de Out de 2020

A pandemia tomou conta de Lisboa e com ela trouxe o que somos e o que não conseguimos ser. Mais casos e mais riscos.




Nada está como era. Nada, em pandemia, é normal. No Funchal, no Porto, em Coimbra, mas muito particularmente em Lisboa que todos conhecemos, que quase todos os madeirenses conhecem, de uma forma ou de outra, por via profissional, porque os filhos foram para a universidade, porque sim, apenas é Lisboa, com todos os defeitos e virtudes das grandes cidades.

É a capital do País, políticas e bairrismos à parte, núcleo importante de turismo, que era de turismo, que concentra diferentes nacionalidades e gerações, milhares de visitantes. Era tudo isso, era, já não é. Nem parece a mesma, só vendo aquele "triste Fado" de uma Lisboa "mergulhada" nas trevas de uma pandemia, que cresce a cada dia que passa a "reboque" de um laxismo visível de uma faixa etária baixa, pouco crente em tudo, sem máscara na rua, aos grupos de dez ou mais em praças e junto às escolas, nos cafés da área Metropolitana. Quem quer ver não precisa andar muito, vê e pronto, percebe a falta de noção e começa a compreender a necessidade de tornar obrigatório o que bem podia ser recomendado e cumprido num país civilizado. Não é assim, a pandemia tomou conta da capital, com ela trouxe o que somos e o que não conseguimos ser. É triste, é a tristeza que sentimos quando andamos pelo Funchal a partir das sete da tarde. Sem tirar nem pôr. Sem gente, sem a alma que a gente sente numa cidade que os tempos foram cravando marcas da nossa história de vida.






Em Lisboa, eram três horas da tarde, de plena "calamidade", o estado em vigor presentemente, uma sexta-feira, daquelas sextas que todos queriam chegar, com "cheirinho a fim de semana", mas que agora é um dia igual aos outros. Acho que agora, os dias são mais iguais, iguais no risco, iguais no medo, iguais na inconsciência de quem não liga ao risco para não ter medo, mas que, bem fundo, tem medo do risco que corre e que não liga.




"Vamos devagar, devagarinho, está muito difícil, estamos sem turistas", diz o homem da ginja mais famosa da Lisboa popular. Pode não ser a melhor, mas é a que só sabe bem, ali, naquele canto onde hoje se anda, sem atropelos, e podemos esperar um longo tempo até o homem voltar a mexer na garrafa ao mesmo tempo que pergunta: "com ou sem?"

Sempre achei que se pedisse "sem" ganhava mais. Só nisso é que foi igual. O resto, talvez, quem sabe, um dia.

Ao lado, um táxi atrás do outro, quase que dão a volta ao Teatro D. Maria. Estão ali, há que tempos, sem fazer um serviço. Ao lado, vítima de uma outra pandemia anterior, o APOLO lá do sítio, a Pastelaria Suíça, desapareceu, continua a obra. E já "património" desta pandemia, é um infindável rol de espaços que fecharam portas e os que estão abertos desesperam. "Ontem, ao almoço, servimos três refeições", diz um empregado na porta de um restaurante com três clientes. Dia bom, os outros estão vazios, os vendedores de castanhas, vários, têm um cansaço diferente na cara que mal se vê, mas que se sente no olhar. A Brasileira ainda tinha alguns clientes, poucos, só o "Pessoa" está na mesma, o Nicola sem um unico cliente na esplanada, igual ao desolador quadro pela cidade, os tuk-tuk não conseguem serviço, acho que nem de borla se tinham clientes. Pensando bem, é uma tragédia para a economia, para milhares de micro empresas. E nem algumas ruas, onde já foram montadas as iluminações de Natal, animam o comércio e as gentes, que nem sabem como será esta " Festa" de u. 2020 que mudou o mundo e a vida.

E para levantar isto? E quantos já nem têm forças, desistem e vão acabando com a Lisboa de outras "eras"?

"Pedem-nos para lutar. Mas vamos começar por onde?" Sente-se como se estivessemos a ouvir, ouve-se pelos gestos de um andar para a frente sem ver o caminho.

E como é que se tem resposta para aquela pergunta? Acho que ninguém tem...



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