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  • Henrique Correia

A coragem do Mário Silva



"O Parkinsonismo é muito mais degenerativo, mas espero poder estar por cá mais tempo, com a ajuda da família e amigos que têm sido, para já preciosos, para vos poder ir contando mais episódios da evolução desta enfermidade, na 1ª pessoa".




Esta imagem que o Mário colocou na sua publicação é daquelas que valem por mil palavras.


A coragem do Mário Silva, que conheço há não sei quantos anos, mas sei que muitos, deixou-me sem reação nos primeiros momentos antes de conseguir processar, com o discernimento que esse momento me permitiu, o escrito que publicou na sua página do Facebook, há uns dias mas só hoje é que vi, assumindo ser doente Parkinson, com o dom da escrita que sempre lhe reconhecemos, a clarividência da explanação relativamente ao que foi sua opção de partilha, mas aquela coragem que nos leva a uma reverência infinita perante o homem e o amigo.

Mas este escrito do Mário vai muito além do sofrimento pessoal e familiar, que é agora partilhado largamente por opção própria. E vai muito além porque assume, simultaneamente, um alerta para uma global para a doença, a evolução, o sentir, a leveza da descrição sobre o peso do descrito, como forma, também, de encorajamento para a comunidade e para aqueles que sofrem e que não conseguem traduzir, como o Mário, este olhar de frente para a doença com uma vontade inimaginável para quem vive o que ele está a viver, vivendo com aquela dimensão que todos gostaríamos, mas que nos perdemos na sobrevalorização de males menores como os maiores problemas das nossas vidas.

Sempre tive com o Mário uma relação de cordialidade, homem educado, respeitado na comunidade do Porto Santo, sua ilha de sonho, mas no todo da Madeira, através das incursões enquanto colaborador e correspondente dos jornais naquela ilha. Tenho muito respeito por ele e decidi fazer este escrito por isso mesmo. Também pela diferença que veio trazer relativamente a um assunto tão delicado, sem especulações. Pela tal coragem que venho falando e que pode dar coragem aos que sofrem, também por opção de respeitar, num silêncio que consome um pouco cada segundo.

Obrigado Mário por este depoimento, que aqui partilho com uma vénia do tamanho do mundo:


N Ã O T E M C U R A…!

Isto das doenças, é preciso em primeiro lugar cumprir com determinadas regras de viver a vida, mas também depende muito da sorte na “escolha” da doença que nos sai na “rifa da vida”.

Uns passam despercebidos, com umas gripes, ou covid’s, uns sofrem nas camas dos hospitais, uns saiem recuperados, outros que ali permanecem muito tempo e, por fim, outros saiem para um local onde todos nos iremos encontrar. Mas ainda há outros que, não estando internados, podem estar em suas casas, vendo as suas vidas aos poucos perdendo qualidade, passando por um efeito degenerativo, que todos os dias evolui negativamente, até uma paralisia (quase) geral. Entre estes últimos estão os Doentes de Parkinson, nos quais se podem incluir os AMS-P, os parkinsonismos atípicos, paralisia progressiva supranuclear, e outros.

Abordando mais em pormenor os doentes com AMS-P (Atrofia Multisistémica tipo parkinsoniana), é na realidade uma degeneração que é sentida todos os dias, embora não seja visível com essa periodicidade. No caso presente muitas das pessoas que se cruzam no café, ou restaurante, não se terão apercebido da evolução da doença.

Mas, indo mais ao fundo desta questão, concerteza que a 1ª pergunta que farão é: “Como podes detectar um DP (Doente de Parkinson)”? Claro que haverá concerteza outras formas de detectar um DP, mas no caso presente, as primeiras manifestações, embora não associadas desde logo pelo paciente, foram a perda do olfato, umas fortes dores no pescoço e mais tarde nas costas. Após várias consultas, foi decidido fazer uma cirurgia à lombar, mas curiosamente depois da cirurgia os neurologistas desconfiaram de que haveria algo mais grave e assim, 3 meses depois (faz hoje 4 anos), foi pela 1ª vez dito que seriam sintomas de um DP e foi logo assumida uma doença degenerativa e que... NÃO TEM CURA!

E a partir daí a degeneração tem sido uma constante bem visível, sobretudo porque no caso presente, incidiu mais nos membros inferiores e na fala. Tudo é comandado pelo cérebro que nos dá ordens a todo o instante e que, não sendo cumpridas, podem originar quedas, mais ou menos graves.

O Parkinsonismo é muito mais degenerativo, mas espero poder estar por cá mais tempo, com a ajuda da família e amigos que têm sido, para já preciosos, para vos poder ir contando mais episódios da evolução desta enfermidade, na 1ª pessoa. Sim, porque sou o DP, o tal que, ainda “NÃO TEM CURA...”

Mário Carlos Silva – Porto Santo.

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