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  • Henrique Correia

A melhor luz de sempre ao "fundo do túnel"

Atualizado: 10 de Dez de 2020

Não vamos ter o melhor Natal de sempre. Mas podemos ter, sempre, a esperança que um Natal sempre dá no imaginário das nossas vidas sem idade. Ou não fosse a esperança a última coisa que devemos perder.



É verdade que estamos num ano atípico, com um Natal diferente, que tudo será diferente num contexto que todos queremos igual nessa diferença. É quase como querer o impossível, mas é também nesse impossível que podemos ter, num enquadramento mais otimista, uma quadra vivida o melhor possível, resguardada de todas as vicissitudes que a Covid-19 já trouxe e certamente trará nos próximos tempos. Mas é importante vivermos e sonharmos, porque o sonho comanda a vida e a vida permite-nos avançar, com um passo naturalmente mais pequeno, mas tão certo que possamos aspirar a outros Natais comemorados como sempre.

É certo que, nestes contextos, fazem-se diferentes conjeturas sobre o que deveria ou não acontecer, sobre as verbas que deveriam ou não ser aplicadas, desta ou daquela forma. Todas as abordagens são legítimas nestes enquadramentos, incluindo aquelas que defendem que a Festa deveria ser, pura e simplesmente, encerrada para outro Natal, as iluminações não aconteciam, o fogo também não. No fundo, era como suspender a vida, numa depressão coletiva que nos arrastaria, inevitavelmente, ainda mais para o fundo do poço. Não concordo. E mesmo sem falar em números, que ditos assim, de forma isolada, até podem parecer mal que sejam aplicados no fogo e nas luzes quando a Saúde precisa de meios num momento difícil, a verdade é que é preciso, também, sabermos criticar quando é preciso e com o que é preciso, mas ter a elevação de resistir à tentação das avaliações demagógicas. Não fazer o Natal possível seria matar um pouco daquilo que somos enquanto povo com tradições. Matar o Natal seria, também, matar um pouco do nosso pouco presente, podendo mesmo comprometer o pouco que ainda teremos, certamente, por muito tempo de um futuro próximo.

Ainda bem que temos Natal na rua. Ainda bem que podemos ver, entre um ano difícil, as ruas do Funchal, mas também de todos os outros concelhos, ornamentadas para a época, faz parte da cultura do povo, talvez até mais importante do que nunca. E temos, de facto, iluminações como nunca. Temos o direito de combater a Covid-19 com cuidado, com reserva, mas com luz, a luz que há uns tempos, não conseguíamos ver neste túnel em que todos entrámos quando a pandemia mandou tudo para casa sem saber o amanhã.

Devo dizer que, em minha opinião, as iluminações estão, este ano, muito mais apuradas, bonitas, bem enquadradas, feitas com imaginação, inovação, criatividade. E em todo o lado, independentemente dos valores que cada concelho teve para investir, a par da globalidade das verbas constantes nas festas de final de ano, canalizadas a partir da secretaria regional do Turismo. É investimento para "queimar"? Depende da perspetiva. Não tem retorno? Depende da perspetiva. A sanidade mental de um povo também é um retorno. É muito dinheiro? Certamente que sim. Mas já gastámos tanto e houve anos em que as luzes foram "jogadas para ali" e o dinheiro foi na mesma. Vê-se, agora, que era possível fazer melhor.

As iluminações de Natal são as melhores de sempre, sob múltiplos aspetos, na tradição, na luz, nas formas, na novidade. É preciso dizê-lo. Só é pena que os turistas, que timidamente vão chegando à Madeira, não sejam em número suficiente para poderem acompanhar este trabalho que acaba por ajudar a passar o Natal com um marco de qualidade. Quando dizemos que é preciso reagir, também é por aqui, por tentar comprar regional, ajudar o pequeno comércio em tempos maus, tendo simultaneamente a preocupação de viver com a responsabilidade que as recomendações aconselham e sobre a qual não podemos, nem um segundo, dar a ideia de baixar a guarda.

Não vamos ter o melhor Natal de sempre. Mas podemos ter, sempre, a esperança que um Natal sempre dá no imaginário das nossas vidas sem idade.

Ou não fosse a esperança a última coisa que devemos perder.

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