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  • Henrique Correia

A mobilização conveniente quatro décadas depois


A oposição madeirense ou se recompõe com argumentos assertivos ou então teremos de novo o PSD a protagonizar a mudança em 2023. Pelas mesmas razões de sempre.




A política madeirense deveria ser objeto de um caso de estudo. Pelo exercício político em si, mas também pelas caraterísticas do eleitorado e pelo exercício da cidadania, um exercício pouco participativo, que tantas vezes obriga à mobilização da militância como forma de expressar este "lapso" dos cidadãos, a participação que deveria ser genuina, interventiva, sem medo de perder qualquer coisa.

A democracia, não sendo nem melhor nem pior, por comparação com outros contextos, tem especificidades muito próprias na Região, tem um partido com mais de 40 anos de governação, tem partidos com mais de 40 anos de oposição relativamente a essa governação. E tem gerações que governam e gerações que são governadas, um peso enorme que se reflete sobremaneira no momento do exercício do ato democrático por excelência, o voto. Todos os cargos dirigentes regionais, vá lá a maioria esmagadora, estão entregues a militantes do partido do poder, aquele que naturalmente tem capacidade para satisfazer uma clientela, cuja realidade, se avaliarmos a questão por quatro décadas, facilmente constatamos que comtempla uma transmissão geracional que acaba por ter peso, por multiplicação, em todo o processo democrático madeirense, que não sendo nem mais nem menos, é ele próprio um "tampão" a eventuais mudanças que uma sociedade como a nossa não arrisca sem um ponto de referência que justifique a mudança. Não havendo essa referência, é melhor jogar pelo seguro e fazer a mudança possível no âmbito do poder, do partido do poder.

É o que acontece no PSD Madeira, que ao contrário de outros contextos democráticos, diferentes, provavelmente pela amplitude e dimensão criticas, sofre pouco a erosão política capaz de colocar em causa a liderança. Ou seja, tem tempo para emendar a mão relativamente aos erros, tem tempo para se recompor e tem tempo para fazer um congresso onde mostrou aquilo que o PSD-M sabe fazer muito bem, a "mobilização conveniente", precisamente por tudo o que é a envolvente do partido. Todos, antigos políticos, novos políticos, futuros políticos, sentem que é preciso de alguma forma preservar os meios para atingir os fins, um interesse superior que conduz a um contexto de elogios, por vezes baseados no exagero, vindos de quem vem, para que na passagem da vida partidária venham ainda a cair algumas "migalhas" que possam "soltar-se" do poder.

O PSD Madeira saiu deste congresso regional com uma imagem mobilizadora interessante. Sabemos que não é bem assim, que muitos dos apoios ficarão sentados de sofá, mas houve uma mobilização que pode refletir, mais por conveniência do que por convicção, o que se passará em 2023. E Miguel Albuquerque, que até tem registo de algumas indecisões de percurso, de avanços e recuos, por atitudes extemporâneas, acabou por beneficiar de dois infelizes momentos, a pandemia e a guerra, onde na generalidade das opções esteve bem.

Mas quem viu este congresso do PSD-M, quem viu a Administração Pública em peso nas bancadas, a esfera de influências, praticamente diz que o CDS pode ir à sua vida que o PSD-M "corre o risco" de recuperar a maioria absoluta, sobretudo se o PS-Madeira não conseguir descolar daquela ideia de partido mediano. Mais do que ser, deve parecer. E isso ainda não aconteceu, também porque é uma liderança nova, cuja capacidade não se discute, mas que falta demonstrar uma ação política incisiva e com dimensão global, o que no PS-M nem sempre é fácil.

Depois do quase Cafôfo em 2019 e do PS intermitente como modo de vida, a oposição madeirense ou se recompõe com argumentos assertivos ou então teremos de novo o PSD a protagonizar a mudança em 2023. Pelas mesmas razões de sempre.



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