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  • Henrique Correia

A quem serve mesmo as eleições antecipadas?


PSD e CDS vão enfrentar processos desgastantes de eleições internas; PCP e BE criaram o efeito e vitimização em António Costa e a queda que vinha sendo visível, pode ser maior. Os pequenos partidos podem desaparecer com a mais do que previsível bipolarização. A Madeira desespera e assim pode continuar.




O chumbo do Orçamento de Estado para 2022, esta quarta-feira na Assembleia da República, veio suscitar algumas questões pertinentes, relativamente à situação em que o País se encontra, mas também transporta-nos para a necessidade de um debate sobre o futuro, o próximo e o mais distante, numa avaliação que deve obedecer a uma equidistância da componente partidária, que naturalmente está inquinada à partida em função do que pensam os partidos, nestas situações incapazes de uma leitura independente.

Mas colocando as cartas na mesa, é importante questionar sobre este momento que ficará na história recente da política em Portugal, uma vez que junta a direita e a esquerda, lado a lado, com o objetivo de o País ir já para eleições, com os naturais constrangimentos resultantes de uma paragem forçada de pelo menos cinco, seis meses. Convencidos estão todos, eufóricos mesmo com nova ida a votos. Pode ser que sim, pode ser que não.

Em primeiro lugar, de forma objetiva, cabe questionar: a quem interessa a antecipação das eleições legislativas nacionais? Quem são os principais beneficiados com este impasse e uma eleição antecipada que fará adiar o País meio ano?

Comecemos pelo PSD, um partido que saiu de um resultado positivo nas Autárquicas, mas cujos créditos têm pouco a ver com o líder Rui Rio. Rio faz a leitura da vitória como se houvesse uma vaga de fundo à sua volta, mas a realidade é outra. Além disso, o PSD vai entrar num processo eleitoral interno, com uma disputa Rui Rio/Paulo Rangel a 4 de dezembro e congresso em janeiro, numa disputa que na realidade será corrosiva para o partido, que está mais do que dividido e não se vislumbra que tenha tempo de se unir para chegar a tempo de disputar as legislativas olhando para o poder. O PSD não está ainda preparado para se apresentar aos portugueses com aquele sentido de vitória suficiente para dirigir o País. Só se o cenário mudar muito. Tinha mais a ganhar se houvesse mais tempo para consolidar a próxima liderança, no fundo deixar o líder fazer algum caminho para depois ir a eleições. Mas não haverá tempo para isso.

O CDS está mais ou menos como o PSD, mas o CDS pior. A braços com disputa interna, os centristas não terão tempo de arrumar a casa desarrumada a tempo de irem a eleições com a folha "limpa" para retirar o partido de perdas sucessivos. Nuno Melo, se for eleito, tem muito trabalho pela frente.

Ao Partido Socialista, naturalmente, as eleições antecipadas não interessam. António Costa sabe que há desgaste, muita aselhice à mistura, e sabe que pode perder votos, embora esteja consciente que poderá manter um bom resultado mas sem maioria absoluta, o que nos dias de hoje tem sido normal no que toca ao comportamento do eleitorado. Como o desgaste do PS não foi seguido por uma oposição forte e capaz de ser incisiva, esse desgaste acabou por não ter o efeito que podia e facilitar um eventual resultado positivo.

O PCP e o Bloco estão no mesmo patamar. Romper com o acordo tem custos. Criar o efeito de vitimização, com Costa no centro, pode ter resultados catastróficos para estes partidos, que em próximas eleições podem perder deputados, até porque em função da envolvência, poderá haver uma bipolarização, muito previsível, que incentiva o voto útil e faz desaparecer os pequenos partidos. E se assim for, como já aconteceu nas últimas legislativas regionais, também para a Câmara do Funchal, os partidos de menor expressão, que hoje têm lugar no Parlamento, podem perder os protagonismos, o que inclui os partidos ainda mais pequenos, de um, dois ou três deputados. O risco de menor diversidade no Parlamento nacional é grande.

Vendo bem, para quem quiser ver bem, o que obviamente não inclui os partidos, que acham que são os melhores do mundo e arredores, as eleições antecipadas não interessam a ninguém.

Vamos parar o país e desfilar candidatos. Os mesmos modelos de campanha, os mesmos argumentos, providenciar a mobilização de militantes para parecer muitos. Dar frangos, dar cabazes, dar tudo o que é possível dar. O povo gosta de receber e não é ingrato.

Ingrata pode mesmo ser a abstenção.







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