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  • Foto do escritorHenrique Correia

A sociedade não olha para o lado...

Atualizado: 20 de abr. de 2023




E perante situações destas e outras que vamos conhecendo, o que é que tem sido feito na área da Psicologia? Porque razão as consultas dessa especialidade não são comparticipadas?




Foto DR


Sem que consigamos definir exatamente o conceito de antigamente naquela precisão de tempo que estabelecemos quando utilizamos a palavra, com a subjetividade daí resultante, a verdade é que no "meu" antigamente a sociedade abordava a doença mental com uns simples "tem problemas de cabeça" ou "sofre da cabeça", logo com o estigma que a apreciação encerra e a correspondente "viagem marginal" que essas pessoas percorrem no "frio" das instituições e num "compartimento" familiar e social.

Não está, hoje, muito diferente, ainda que possamos reconhecer um esforço no sentido de mudar mentalidades e sobretudo mudar a visão de doença/saúde quando esta realidade vem para cima da mesa e ninguém a debate como deve ser, com prevenção e com medidas concretas no sentido de evitar que esta realidade se alastre ao ponto de alcançar números graves no futuro.

Não está, hoje, muito diferente daquilo que é a visão do "meu" antigamente, mesmo tendo em conta que há um maior recurso à Psicologia, à Psiquiatria e a metodologias que ajudam a sabermos coexistir com as dificuldades, os insucessos e com obstáculos depressivos que a vivência proporciona também fruto de uma sociedade que não olha para o lado e que só é comunidade porque há muita gente, mas oferece o silêncio em vez do debate, o individualismo em vez do interesse coletivo, a predominância do número em vez da pessoa.

Neste trajeto entre a existência de sucesso e a desistência nas dificuldades, não há lugar à diferença, nem ao recurso à saúde mental que tem como consequência direta o "rótulo" de incapaz. E os rótulos são, quase sempre, para sempre. E para sempre, pode representar o fim a qualquer momento.

Vem tudo isto a propósito de uma jovem, de pouco mais de 30 anos, que decidiu terminar com a vida da forma como foi. Não há formas melhores ou piores de fazê-lo, foi uma delas, foi o desespero a corroer por dentro e a tomar uma decisão sem que a sociedade se apercebesse que há vidas além da vida, que há um mundo incompreendido e complexo, de pessoas ditas normais, que por um qualquer "acidente de percurso", viram desabar o mundo. E gritam por ajuda sem falar uma palavra. E ninguém ouve neste "barulho" das manhãs, das tardes, das noites, umas atrás das outras, naquela correria em direção ao sucesso e, para alguns, ao abismo. A sociedade não olha para o lado para ver refletir sobre quem fica pelo caminho. Não há respostas e vamos continuar assim, como se apenas pudessemos "tapar buracos", como nas estradas, uma espécie de "varrer para debaixo do tapete" enquanto o discurso, dos mais pomposos, assentam numa modernização de meios em favor da Saúde Mental. E numa sociedade que se diz evoluída numa mediocridade mental selecionada. É duro, é pena, mas é assim.

E perante situações destas e outras que vamos conhecendo, o que é que tem sido feito na área da Psicologia? Porque razão as consultas dessa especialidade não são comparticipadas? O que leva os governos a esta inércia perante esta evidência numa área importante para evitar maiores consequências, em diferentes contextos e escalões etários, mas tudo fruto de uma conjuntura? Se todos nós nos apercebemos destes problemas, se há dramas a acontecerem todos os dias, é difícil de compreender que não se aposte, efetivamente, numa prevenção mais presente, sem as tibiezas do adiamento de medidas de fundo. O que é preciso mais? Se o serviço público não tem capacidade de resposta, porque razão os Governos e as ordens não aceleram processos de integração da especialidade na Convenção que permite ao utente ir a uma consulta no privado com reembolso posterior.

Se não houver intervenção mais firme, vamos ter mais casos certamente, está à vista. E se esta sociedade não arrepia caminho, o futuro está comprometido.

No fundo, a verdade é que esta sociedade também "sofre da cabeça", como se dizia no "meu" antigamente. Esperemos que mude a tempo...

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