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  • Henrique Correia

A vacinação das crianças é muito individual. É assim, ponto.



Na generalidade das medidas e dos discursos, tirando um ou outro percalço linguístico, a Madeira sempre esteve à frente nas medidas assertivas de prevenção. Não é agora que vai "andar aos papéis"...



A vacinação das crianças não é uma questão pacífica, está longe de o ser, está longe de provocar consensos e sendo uma decisão dos pais, não estando incluída no plano nacional de vacinação ou em qualquer regime de caráter obrigatório, será sempre uma situação que se enquadra nas decisões individuais. E bem sabemos como esse enquadramento é demasiado complexo quando se trata de uma problemática que dizem ter a ver com o bem comum. E não sejamos hipócritas, as pessoas não se movem pelo bem comum, movem-se pelos apelos ou necessidades individuais. E até a grande adesão aos testes, que em minha opinião é das maiores mobilizações já vistas neste contexto Covid-19, tem muito a ver com aquilo que cada um quer fazer, uma festa de família, um jantar de amigos e porque os amigos pedem e dizem que é melhor assim, ou até mesmo impelidos pela contextualização do final do ano, onde as diversões, as barraquinhas da Placa Central e os jantares temáticos, não só aconselham mas também exigem. E a tradição tem um peso grande, ainda é o que era.

Não sendo a vacinação de crianças um dado completamente comprovado nem tão pouco consensual no mundo inteiro, naturalmente que se trata de uma situação muito sensível. E os governos, também naturalmente, são colocados entre dois "fogos": a recomendação das Autoridades de Saúde, com as evidências científicas possíveis do momento; as fortes dúvidas dos pais, que neste caso estarão a decidir pelos filhos, o que é sempre complexo na medida em que as restantes decisões da vida são por convicção, mesmo que algumas erradas, mas esta será um pouco como deixar a criança submeter-se a uma vacina que dizem fazer bem, mas cujos efeitos secundários são sempre possíveis, como de resto acontece com os adultos. Só que estamos a falar de crianças e as dúvidas duplicam e triplicam mesmo com toda a informação disponível e os apelos de bom senso. Estou até convencido que os próprios pediatras têm dificuldades acrescidas de aconselhamento sem reservas.

Não havendo consenso internacional relativamente à própria vacina, fica difícil, aos governos, uma recomendação na base do consenso e do bom senso. E ficando difícil, nessas duas perspetivas, o processo não pode ser conduzido como uma espécie de corretivo aos pais, colocando de um lado os "responsáveis" e do outro os "irresponsáveis". Percebe-se o alerta, entende-se que a vacinação, não tendo a eficácia nas percentagens inicialmente avançadas, pode reduzir a dimensão do problema, na generalidade, pode ser, como admito que seja, o melhor conselho a dar para proteção coletiva, mas fica dificil, também aqui, apelar a uma mobilização coletiva numa questão que tem tanto de coletiva como de individual, sendo que o peso, naturalmente, é o individual. Naturalmente porque não podemos passar a vida a criar uma sociedade individualizada porque serve ao poder político e ao poder económico, e depois de repente pretender uma mobilização coletiva sem que cada um pense primeiro para dentro.

O discurso e a mensagem são muito importantes. Fica difícil, também ao Governo, verificar o fracasso da vacinação das crianças. E as declarações de Pedro Ramos foram nesse sentido, embora de forma excessiva. Não resolve a fraca adesão que está para trás, não torna apelativo o que vem para a frente. Acho mesmo que este processo dificilmente atingirá os níveis pretendidos e as opções, neste âmbito, talvez passassem pela medida de uma semana de confinamento para os agentes educativos, como acontece a nível nacional.

Na generalidade das medidas e dos discursos, tirando um ou outro percalço linguístico, a Madeira sempre esteve à frente nas medidas assertivas de prevenção. Não é agora que vai "andar aos papéis"...



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