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  • Henrique Correia

A vitória da bola sobre os "donos"


Os "donos da bola" também perderam e isso deve servir-lhes de reflexão. Para o futebol e para o resto onde também são "influencers".



As eleições no Marítimo merecem um enquadramento de reflexão sobre a forma como os clubes estão estruturados, a forma como os presidentes estão posicionados e a forma como os poderes estão infiltrados.

Uma reflexão que no fundo assenta num certo estado de metodologias que se instalaram durante décadas, não é exclusivo da Região, mas que na Região vem do tempo em que nasceu a Autonomia, onde clubes, associações, agremiações de bairro, de sítio, casas do povo, entre outros movimentos associativos, duradouros ou conjunturais, criaram aquilo a que podemos considerar de uma proteção especial. São as cumplicidades, normais e naturais, entre quem apoia e quem é apoiado. O anormal é a influência que isso tem.

A possibilidade dos lideres se perpetuarem no poder é praticamente de cem por cento. Serve a todos, aos que apoiam e aos que são apoiados, o que ganha dimensão ainda maior em meios pequenos como o nosso, onde as dependências são grandes e qualquer iniciativa só avança com apoios públicos, aparentemente desinteressados, mas na prática comprometedores.

Neste contexto, o que aconteceu com estas eleições do Marítimo foi deveras surpreendente. O candidato Carlos Pereira era o candidato do sistema, tinha toda a máquina ao serviço da sua campanha, tinha décadas de presidência do clube e da SAD, tinha todo o domínio da situação, tinha o apoio de muitos influentes em diversas áreas da vida madeirense, desde a política à economia. Sempre concorreu sozinho, sempre fez a gestão sozinho, sempre foi sozinho e com os anos foi ganhando dimensão, sempre sozinho.

Não podemos dizer, para sermos verdadeiros e justos, que Carlos Pereira não fica na história do clube. Fica e fica com trabalho, assim por alto construiu património, desde instalações, o colégio do Maritimo, o estádio do clube, entre outros projetos. Mas também fica na história pelo quero, posso e mando, com decisões avulso, medidas pela sua medida de visão, que nem a aposta na parte patrimonial do clube serve de justificação tantas as decisões completamente catastróficas para o futebol. E o clube é muito futebol. E nenhum presidente é mais do que um clube.

Carlos Pereira sofreu da síndrome da presidência longa. O poder de muitos anos foi assumindo uma dimensão pessoal tão grande que se convenceu que poderia ficar ali 40 anos sem grande esforço e gerindo o clube sem grandes convulsões, como sempre fez, preferencialmente de lista única para não deixar qualquer dúvida.

Até que chegámos aqui. Com uma alternativa, Rui Fontes, mas sobretudo com um fator determinante para este virar de página, o futebol e as derrotas recentes para a Taça da Liga e para a I Liga. Carlos Pereira foi claramente derrotado por Rui Fontes, mas também pelo futebol, foi por aqui que falhou a estratégia do presidente ainda em exercício. E foi isso que também o derrotou.

Além disso, é importante fazer leitura dos resultados à luz das influências, das cumplicidades entre futebol e a política, com interesses instalados por essas relações que perduram no tempo e fazem tábua rasa do contexto democrático. Carlos Pereira perdeu, mas não perdeu sozinho. Apesar de preferir gerir sozinho, a derrota não é só dele, mais alguém saiu derrotado destas prepotências em que o futebol é fértil e onde o Marítimo também estava mergulhado. Os "donos da bola" também perderam e isso deve servir-lhes de reflexão. Para o futebol e para o resto onde também são "influencers".

O grande vencedor foi Rui Fontes. Meteu-se nesta alhada pela segunda vez, tem uma missão difícil pela frente, mas fez uma boa campanha, rodeado por pessoas que têm credibilidade, como o médico Eugénio Mendonça e os ex-futebolistas de referência, João Luís e Luís Olim, além de José Augusto, um maritimista de longa data.

No fundo, é simples de definir este momento: foi a vitória da bola sobre os "donos".

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