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  • Henrique Correia

Altice no País das Maravilhas


Despedimento coletivo a pretexto da crise que encaixa em tudo, a fragilidade dos sindicatos que perderam força com a força do individualismo a pensar que só acontece aos outros, levam a este triste cenário laboral de um País que sonha como se fosse a Alice dos contos.




A Altice anunciou o despedimento coletivo de 200 a 300 trabalhadores, depois de ter chegado a acordo para rescisões voluntárias de 1100. A Altice, dona da Meo, é daquelas empresas que chegam ao mercado e os governos agacham-se. E como diz o povo, quem muito se agacha...É daquelas empresas que criam postos de trabalho, é verdade, que têm dimensão negocial, que impõem praticamente o que querem, comprometem-se a determinados princípios e compromissos, mas não olham para trás quando é para partir o elo mais fraco da ligação empresarial, os trabalhadores, beneficiando da argumentação da crise pandémica, que encaixa em todos os atropelos, mesmo que dentro da legalidade, como é a figura do despedimento coletivo e outros mecanismos, que tantas vezes se misturam com pressão inaceitável aos trabalhadores para que aceitem o que está sobre a mesa, caso contrário, amanhã, daqui a uma semana, vão mesmo para a rua e nem levam esse.

Um expediente bem conhecido, na atual moldura laboral portuguesa e que tem sido exercitado muito antes da pandemia, nas empresas privadas e nas empresas sob alçada dos governos, Regional e da República.

Neste País das Maravilhas, também em matéria de direitos dos trabalhadores, a Altice, qual Alice dos contos e dos sonhos, que roçam por vezes o absurdo e a sátira, vem "ajudar à "festa da crise", com o governo a afirmar que está a seguir com atenção para que sejam salvaguardados os direitos dos trabalhadores. Menos o direito ao trabalho. Mas que direitos? Como defender o que não existe? Como fazer emergir o que, na realidade, está na origem destes despedimentos, muitas vezes ligados a reduções de lucros ou expurga de funcionários "indesejáveis", uns porque não são bons, outros porque atrapalham negociatas, e não propriamente a reestruturações resultantes de dificuldades efetivas das empresas. Era preciso que o Estado tivesse mecanismos para intervir, regular. Mas não tem. Não só não tem, como também pratica onde manda.

Nem tudo pode ser visto à luz apenas do que diz a lei. Mas é claro que, neste caso, já todos defendem o cumprimento de uma lei que tem muito que se diga. Mas depois, o problema é que ninguém quer trabalhar.

Hoje, na Assembleia Regional, discutiu-se um voto de solidariedade para com esses trabalhadores na "carreira de tiro" da Altice. Da autoria do PCP. Os deputados estiveram ao lado dos trabalhadores, o que é natural, com críticas ao comportamento de uma empresa que num contexto de crise só olha para a frente. Foi uma "gota de água" nesta reação que vai durar para aí um dia, dois ou três no máximo, até uma outra distração qualquer que apareça num qualquer canal e que faça esquecer gente de trabalho e com famílias.

Uma palavra final para os sindicatos: lamento o que está a acontecer com as estruturas sindicais, a fragilidade da atuação num quadro laboral como este, a dificuldade que sentem para defender o que não existe: direitos. Fazem o que podem e podem pouco, numa sociedade individualista, que vive do sonho como se fosse a Alice.



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