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  • Henrique Correia

As praxes do "Superior" entre a tradição de um poder e o poder da tradição

Porto e Lisboa "cortam", Coimbra diz que manter, com regras, tem ainda encanto. São milhares os alunos que preparam novo ciclo

O dia 28 de setembro é momento chave para milhares de alunos que procuram o ingresso no Ensino Superior, primeira fase. É o dia em que são divulgadas as colocações, em que se abrem perspetivas e sonhos, mas também algumas desilusões, difíceis de gerir naquela fase da vida, mas que representam, também, uma aprendizagem de vida. Faltam menos de três dias inteiros. 

Ao todo, a nível nacional, são mais de 22 mil novos alunos, muitos da Região, este ano com um problema acrescido aos que normalmente acontecem aos universitários das ilhas, estão deslocados e procuram ambientar-se às zonas onde ficam colocados, bem como os pais à despesa, elevada, que passam a ter. E este ano tem a pandemia, a exigir cuidados redobrados por via das viagens aéreas, necessárias, bem como a circulação em áreas de registo crescente de novos casos de infeção por COVID-19. E para quem vive numa ilha, as deslocações implicam riscos acrescidos, não sendo por acaso a preocupação já manifestada pelo Governo Regional, que prevê uma situação vulnerável quando se registar o regresso dos pais que a partir da próxima semana vão acompanhar os filhos às universidades. E por isso, além do teste à chegada ao aeroporto, haverá um outro, entre o quinto e sétimo dias depois do regresso, para profissionais das areas da Saúde, Educação, Social e Proteção Civil. Uma boa medida de prevenção, sem dúvida.

Trata-se de uma realidade diferente, uma de muias diferenças neste contexto, as diferenças que cada universidade pode adotar nas suas funcionalidades de ensino, uma vez que têm liberdade de escolha relativamente ao método considerado adaptável a cada uma, se todo o sistema presencial, se um misto de presencial e à distância.

E depois tem as praxes, aquele momento que uns dizem de tradição e outros confundem com "marcação de território", num mero exercício de um poder fácil para poder deixar a ideia que ali há poder sem poder, às vezes, para fazer o que faz. Os exageros já resultaram mal. Mas hoje, além desse "bem receber" os caloiros, existem os condicionalismos impostos pelas medidas de prevenção da pandemia e em contexto de estado de contingência pelo menos até meio de outubro, o que agrava os riscos dessas práticas, por muito suaves que prometam ser. Nunca são.

A Universidade de Lisboa e a Universidade do Porto já retiraram as praxes do início do ano letivo. Coimbra não, mantém o que diz ser a tradição na "cidade dos estudantes", segundo o conselho de veteranos, embora com algumas reservas:

 a) Proibido mobilizações com mais de dez participantes;

 b) Interditas todas as interacções e actividades que envolvam contacto físico;

 c) Distância mínima de segurança de dois metros;

 d) Incumprimento das normas sanitárias são puníveis segundo a Praxe e passível de Processo Disciplinar junto da Universidade.

O ministro da tutela, Manuel Heitor, lamenta e repudia as decisões associadas a praxes académicas. Diz que “num momento de crise pandémica como o que se vive atualmente, é incompreensível haver decisões deste teor relativamente a atividades que nem são essenciais nem são desejáveis nos espaços académicos".

A situação, em si, é discutível. Já era antes da pandemia, por outras razões. Agira, é mais. Faz parte da entrada nas universidades, mas naturalmente de forma comedida, respeitando o que está subjacente à própria característica do ato, a integração e não a segregação. E neste momento, como de resto na vida toda, nada é igual ao que era. Também nas praxes, sem dramas.


Nota: acabo de escrever este texto, vou a um café da manhã. Ao lado, uma mesa de sete jovens, devem andar pelos 16, 17 anos. Chegam juntos, sentam-se juntos, cadeiras "coladas", já nem olho para as máscaras, não há. Não havia quando chegaram. Falam para cima uns dos outros e não há volta a dar. Estamos bem arranjados...


Carta dos veteranos de Coimbra



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