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  • Henrique Correia

As recomendações obrigatórias...


Miguel Albuquerque decidiu bem, na intenção de intervir, fazer qualquer coisa. Mas comunicou mal e parte do que comunicou era impraticável no imediato.




Não é obrigatório termos, todos, o dom da comunicação. Uns decidem bem e comunicam mal, outros decidem mal mas recomendam tão bem que até parece obrigatório, mas cada um por si tem qualidades e defeitos nas suas diferentes funções. Não significa que sejam incompetentes se não dominarem bem uma das áreas de ação, manda a inteligência ou, vá lá, a esperteza, de preferência não saloia, de ir apurando os defeitos tão depressa quanto as virtudes, com a humildade de saber dar um passo atrás para poder dar dois à frente. Ou dar a quem sabe as tarefas sobre as quais não temos domínio.

A capacidade de comunicar é importante, em qualquer setor, mas na política é ainda mais, sendo que neste domínio da pandemia é mesmo determinante em função da forma como o assunto é sensível junto das pessoas. Um assunto de saúde é sempre sensível, mas a pandemia é a vida que as pessoas avaliam como estando em jogo, aqui não interessa saber se justificadamente ou não, é preciso confiar nas instituições por princípio.

Não sou médico, não sou agente da saúde, não tenho conhecimento para discutir a pandemia do ponto de vista técnico. E das duas uma: ou seguimos um rumo de dar importância à doença, com os dados que temos, e queremos a vacina, a primeira, segunda e terceira doses, ou não queremos nada disso e é uma posição legítima, desde que respeitando os direitos, liberdades e garantias dos outros.

Acho que o presidente do Governo tem decidido bem desde o início da pandemia. E é importante termos o sentido crítico assente, não exclusivamente se gostamos ou não de determinado estilo das pessoas, mas sim nos conteúdos que transmitem e, mais importante, na forma como transmitem. E é aqui que reside o problema. Decidiu bem, certamente com acompanhamento dos técnicos.

A questão é simples. A Região não tem poderes em matéria de direitos, liberdades e garantias, é matéria da esfera da Assembleia da República. A Madeira não pode tornar obrigatória uma medida que não tem poderes para legislar. A Assembleia e o Governo regionais podem tomar diversas medidas no âmbito das suas competências, que são diferentes em estado de emergência, o que não é o caso neste momento. E isso é tão simples de perceber que um governante/líder deve sentar-se com os técnicos, com os seus companheiros do Governo e, não perderia nada se ouvisse os poucos partidos com representação parlamentar, isso faz-se em pouco tempo. Depois, estabelecer a forma de comunicar, já escudado e fechando todos os caminhos por onde não pode ir. Não pode ir, não vai. Não diz que vai sem poder ir, nem faz que pode sem poder fazer.

Decidir por impulso porque apetece dar uma lição bem dada a esta malta inconsciente, que abraça meia dúzia nos cafés e à noite contagia o avô e a avó. Ou aqueles que vão para as discotecas, bares, restaurantes como se a pandemia tivesse acabado, não é solução. É verdade que apetece, senhor presidente, era pela medida grande e fechar para ver se aprendiam e para ver se os empresários, alguns, também levavam um alerta. É verdade, mas essa é uma atitude que se percebe para o cidadão comum, para quem estas situações eram resolvidas à cacetada. Não pode ser, como se sabe.

Miguel Albuquerque decidiu bem, na intenção de intervir, fazer qualquer coisa. Mas comunicou mal e parte do que comunicou era impraticável no imediato. Via-se sem grande estratégia. Mas o presidente do Governo não viu, não quis ver ou comunicaram mal internamente, pode ter acontecido. Depois, já era difícil evitar alguma instabilidade na decisão, que desestabilizou a população.

Sendo a comunicação um dos pontos fortes em temas sensíveis, como é a pandemia, seria de prever uma maior e melhor operacionalidade. E se não é a parte humana e técnica que falta, então o problema está na forma.





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