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  • Henrique Correia

Audiências televisivas não querem nada com Cautela



As audiências televisivas definem a qualidade, ou a falta dela. É bom para o negócio, logo é bom. O poder económico agradece. Os portugueses perdem, mas ainda não sabem disso...




Acho curioso este frenesim das audiências televisivas, esta mobilização global primária, muitas vezes acéfala, à volta de programas televisivos de entretenimento básico, porque é precisamente o básico que alimenta as audiências. E não é apenas um fenómeno português, é verdade que é muito português, mas tem expansão internacional, não sendo por isso que é menos preocupante do ponto de vista do que se consome, hoje, nas televisões que operam em Portugal.

Como disse ontem o jornalista Adelino Faria, da mais comedida RTP, sendo ele próprio comedido, mas fazendo parte de uma estratégia editorial ou, mais abrangente, de canal, o dia foi marcado pelas últimas homenagens à Rainha Isabel II. Julgo que isto diz muito, diz quase tudo sobre a forma enviezada como o nosso entendimento televisivo está enraizado e incentiva os conteúdos que hoje dominam as televisões. É a triste procura que resulta nesta triste oferta. O funeral da Rainha marcou o dia numa Televisão como a RTP? Pois claro, como é que queremos outra avaliação?

Vem isto a propósito de uma notícia dando conta que "na noite deste domingo, 18 de setembro, ‘Eu Faço Tudo Por Amor’, de Filomena Cautela, registou a pior audiência de sempre. O formato foi visto por uma média de 131 mil e 200 telespectadores, o que corresponde a 1.4% de rating e 5.7% de share. O programa da RTP1 esteve sempre muito longe da concorrência, ‘Big Brother’ (TVI) e ‘Quem Quer Namorar com o Agricultor?’ (SIC)".

Deve a Filomena Cautela, que também não conduz o melhor programa do "mundo", ficar preocupada com esta baixa de audiências perdendo para o Big Brother e o namoro dos agricultores? Deve, na medida em que pode ser despedida, não por ter um programa mau, mas por ter sido ultrapassada por dois programas piores, bem piores do ponto de vista de qualidade, embora com uma grande audiência que clama por pequena qualidade nivelando tudo por baixo. Devemos estar surpreendidos por estes resultados das audiências que pedem sangue, suor e lágrimas? Não, não devemos ficar surpreendidos porque é mesmo assim, é o retrato de uma sociedade alheada dos problemas que a afetam na vivência isolada ou em comunidade, mas que sabe tudo o que se passa com o Big Brother, com o vestido, ou o despido, da Cristina Ferreira, conhecendo de cor os nomes e a vida de cada um dos participantes.

Devemos estar preocupados com este universo de vivências do qual fazemos parte e com o qual convivemos? Devemos, claro que devemos. Podemos fazer alguma coisa? Podemos, claro que podemos. A sociedade quer ser diferente, quer mudar este paradigma? Não, não quer. Uma sociedade de Big Brother alimenta-se de Big Brother. E garante o share à maneira.

Se é bom para o negócio, é bom. O poder económico agradece. Os portugueses perdem, mas ainda não sabem disso...


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