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  • Henrique Correia

Carlos Rodrigues faz uma espécie de "despedida" e "atira-se" aos oportunistas


" "Não é fácil quando vemos uma ideia por nós apresentada ser rejeitada para, passado algum tempo, ser apresentada por outros e, isto, acontece de um lado e do outro".




O deputado Carlos Rodrigues, do PSD-M, sempre teve um estilo muito próprio. Uma relação de "amor-ódio", interpares ou na dialética com a oposição, um posicionamento que não se conjuga com o politicamente correto, capaz de andar pelo risco, pela fronteira, e nem sempre terá conseguido evitar os efeitos secundários de quem faz política nestes contornos. Mas é assim, sabe-se com o que se conta, o que como se sabe tantas vezes não é assim.

Recentemente, no encerramento do debate sobre o Orçamento da Região para 2023, o deputado fez uma intervenção que muitos fizeram ligação automática com uma eventual mensagem de despedida. E vendo bem, lendo bem, nas linhas e nas entrelinhas, parece mesmo que fará desta quarta sessão Legislativa da Legislatura a sua última passagem pelo Parlamento Madeirense. É verdade que bem tudo é o que parece, mas estas declarações parecem indiciar um desencanto com as pessoas, com a particularidade de haver mensagens, a maior parte delas, para dentro do partido.

Mas independentemente do que estará subjacente a esta decisão de levar ao Parlamento este conteúdo muito particular, Carlos Rodrigues traz a debate algumas realidades da nossa política, a política de partido de poder, com conhecimento de causa e fruto de anos a ver críticos, muitos oportunistas, a versão da clientela e o clientelismo que vocifera num partido de poder, onde militam interesses que se alimentam da máquina de emprego que garante lugares à militância, que muitas vezes pouco ou nada tem a ver com a competência.

Agradeceu a deputados de vários partidos. Só para citar alguns: Jaime Filipe Ramos, Rubina Leal, Miguel Alves, Ricardo Lume, Jacinto Serrão, mas mais, muitos mais.

Diz que "este é um agradecimento reconhecido, sincero e sem falsa humildade. De uma maneira ou de outra, aprendi com todos, reconheço que com alguns foi mais difícil, mas isso apenas torna o processo mais interessante ainda que desesperante por vezes".

Carlos Rodrigues põe o foco num outro universo de personagens, bem conhecidos na Madeira, e que se amotinam em "bicos de pés" para o protagonismo: "Há quem diga que isto é uma casa de loucos, mas são os primeiros a exigir a sua presença constante nos eventos, celebrações, debates e iniciativas protagonizados e lançados por esta Assembleia e que se amofinam e se revoltam quando não são lembrados ou chamados a dar a sua opinião".

E os antigos deputados também entram nesta "varridela": "Há quem por aqui já tenha andado e que, agora, afastados, caia na tentação de dizer que nessa altura é que era, no entanto, não se lhes conhece uma palavra dita ou uma letra escrita que seja relevante ou que tenha feito a diferença".

E mais: "Há quem, do alto dos seus camarotes, no cimo das suas torres de capitão, debite julgamentos morais, críticas acutilantes, sem conhecimento de causa, eivados de uma suposta superioridade moral e intelectual que ninguém, a não ser os próprios, lhes outorgou. Espero que, já no próximo ano, sejam eleitos para esta assembleia e aí, tomarei o seu lugar nessas torres de capitão e dedicarei parte do meu tempo a analisar os seus comportamentos e a tirar as minhas conclusões".

Sem "pestanejar", Carlos Rodrigues vai a um dos fundos da questão "Há quem deambule pelos cafés e esquinas das nossas cidades em autênticas peregrinações de maledicência, a verberar todo e qualquer político, ungidos de um espírito cruzado contra os infiéis da política. Curioso torna-se, pois, quando são sempre estes, os primeiros a nos abordar para que resolvamos o problema da filha que quer ir para a função pública porque deseja um emprego seguro, do genro que não tem emprego, mas que já recusou inúmeras ofertas do Instituto de emprego, do irmão que quer uma casa diferente porque não gosta da vizinhança. Pedidos, não de quem realmente precisa, mas de quem quer passar à frente dos que realmente necessitam. Pedidos que são feitos com uma proximidade, uma simpatia sabuja, que, quando não satisfeitos, transformam-se num ódio visceral e num chorrilho de ameaças descabidas".

Claro que, até parece que depois disto, Carlos Rodrigues poderá estar numa posição delicada na bancada social democrata. Os defeitos normalmente atribuídos à oposição, afinal existem "de um lado e do outro"?


Confira a versão de Carlos Rodrigues:


"Não é fácil quando vemos uma ideia por nós apresentada ser rejeitada para, passado algum tempo, ser apresentada por outros e, isto, acontece de um lado e do outro.

Não é fácil quando apresentamos um argumento sustentado em factos e somos apelidados de mentirosos e, isto, acontece de um lado e do outro.

Não é fácil quando propomos com boas intenções e nos acusam de defender interesses sub-reptícios e dissimulados e, isto, acontece de um lado e do outro.

Não é fácil quando, perante a falta de argumentos, se recorre a ataques pessoais e, isto, acontece de um lado e do outro.

Não é fácil quando nos tornamos alvos de invejas mesquinhas, de vidas frustradas, de traumas passados, porque estamos expostos e à mercê de todo e qualquer falhado preguiçoso e, isto, acontece de um lado e de outro".

Carlos Rodrigues prossegue admitindo um registo já atrás referido: "Perdoem-me este momento intimista e muito pessoal. Seria expectável, reconheço, que viesse a esta tribuna vilipendiar a oposição, cuspir labaredas sobre a postura dos meus adversários, açoitar violentamente aqueles que comigo não concordam, cantar loas à Proposta de Orçamento, poderia tê-lo feito, teria sido mais fácil, confesso ter uma certa apetência para esse registo e, modéstia à parte, julgo fazê-lo de forma irrepreensível.

Achei que não valia a pena, deixo isso para quem nos ouviu e ouve, cada qual tirará as suas conclusões acerca dos méritos e deméritos da proposta agora aprovada".

Pode ter sido apenas um momento numa qualquer conjuntura, pode ter sido uma despedida preparando uma próxima lista cuja composição será certamente das mais complicadas para o PSD, tem que contemplar o CDS e os presidentes de câmara que não se podem recandidatar e que esperam um lugar bom no Parlamento. Carlos Rodrigues até pode nem ter pensado nisso. Mas uma coisa é certa: colocou a descoberto o que a política tem de pior nos corredores da vida politico partidária. Mesmo correndo o risco de ouvir: "porquê só agora..."

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