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  • Henrique Correia

Como será o futuro dos jovens com um presente destes?

Os últimos dados do desemprego jovem, em Portugal, divulgados hoje, apontam para um número: 23%. Este é o primeiro degrau da desilusão para o mercado de trabalho

Não sei se estaremos suficientemente conscientes relativamente à gravidade do que estamos a criar relativamente às condições de vida dos nossos jovens. Sinceramente, acho que o interesse da formação humana, dos valores, do que importa preservar e que nem sempre se contabiliza em moedas de euro, tem sido “atropelado” por aquilo a que chamam uma dimensão maior, dizem os que se interessam por dizer só o que interessa, claro está o valor económico, acima de tudo e tudo por um universo do mundo global e de pequenas crises, que um dia trarão o paraíso dos problemas e das dificuldades, da intolerância e do egoísmo em função do que falta e do que (não) têm. Agora, há tudo isso mais a pandemia. Agora é que os jovens não “levantam cabeça”.

Os últimos dados do desemprego jovem, em Portugal, divulgados hoje, apontam para um número: 23%. Este é o primeiro degrau da desilusão para o mercado de trabalho depois de uma vida de estudo, uns mais, outros menos, como em tudo, mas todos com os seus sonhos derramados por cada passo, mesmo aquele passo que se dá em falso, nas vidas que vamos tendo na vida, mas que, vendo bem, tem um fundo tão verdadeiro que faz parte da construção do ser, assim de forma simples e sem que por vezes possamos dar conta na proporção que efetivamente tem. Mais tarde, talvez.

O curso termina e o medo continua, o medo dos pais, o medo dos filhos, o medo em relação a um mercado que deixa a parte forte para as reservas de emprego e que vai escoando a parte frágil pela fragilidade de quem procura e fica com o que resta neste caminho para um qualquer futuro e para um futuro qualquer. E, depois, há os outros, a quem resta pouco. Ou nada. Ninguém prepara um jovem para o nada, mas o País há muito que prepara o nada para os jovens. Nada de trabalho, quando há trabalho nada de estabilidade, recibos verdes e contratos sempre no vermelho. Nada de rendimento para construir família, ter uma vida normal, é o mínimo, mas mesmo esse mínimo, nada. Nada de filhos, educar custa mesmo muito, fiquemos pela reduzida demografia. Nada de casa própria, as instituições bancárias tratam logo de trazer para a realidade a precariedade com que os jovens vivem, só com uma segurança que não dão e uma esperança que os sucessivos nãos vão fazendo desaparecer, um pouco todos os dias, por entre aqueles sonhos de mão cheia, que os levam de volta, para um mundo real, e de mãos vazias.

Não podemos, todos os dias, ceder à tentação do mal menor. É melhor ter emprego mesmo a 600 euros do que não ter. É melhor trabalhar a recibo verde do que não trabalhar. É melhor trabalhar doze e catorze horas do que não fazer nada nem um segundo, pelo menos há trabalho. É melhor ter deveres, significa que há o que faça, os direitos não pagam as contas. Teoricamente, está assim, na prática também, em muitos casos. Faz sentido pensar assim, para quem precisa então, faz mesmo muito sentido, não faz sentido outra coisa. Foi assim que chegámos ao patamar onde nos encontramos hoje, onde as estatísticas e os aproveitamentos da legislação feita à conta de argumentos de crise, acabam por mobilizar uma legião de empregados a “granel”. Até que uma pandemia, que todos compreendemos ser um factor externo com efeitos preocupantes na economia, veio, agora justificadamente, colocar os jovens ainda em piores situações. Mas o que aconteceu para trás não conta? E já estávamos com a juventude assim.

Como diz o Presidente da República, o emprego está mau para os jovens e para os velhos.

É melhor verem bem se querem mesmo um País sem Futuro, sem Memória e sem História.

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