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  • Henrique Correia

Crónica - A “gincana” do carrinho de compras

Devem estar umas dez pessoas para pagar em cada uma das quatro, cinco ou mais caixas, é hora de ponta


Já não aguento ir ao supermercado. Eu, que até gostava de ir às compras, estou a apanhar um fartote que nem digo nada. Não se pode, não nestes supermercados que expõem os produtos como se ninguém passasse por ali para comprar. Entre duas prateleiras, um corredor de meio metro de largura com cerveja de promoção, tapetes em saldo e frigideiras que prometem ser daquelas que não “pegam” e que estão a preço de “pegar ou largar”.

Quando vejo aqueles corredores, já fico a meio caminho entre a indignação e a ansiedade de apanhar um “desvio”, não vá vir alguém em sentido contrário e não cabe dois carros, às vezes não cabem mesmo duas pessoas. Ou bem pensar nas compras, ou bem andar numa gincana a fugir dos clientes e dos produtos que a gente quer levar mas que, não raras vezes, andamos às voltas para fugir ao senhor de bigode que parece ter apetite e traz dois carros que nem amanhã de manhã nos deixa passar naquele corredor. Um caos, acreditem, muita coisa já acontecia antes da pandemia, mas agora com máscara é pior. Experimentem fugir de um carro de supermercado em sentido contrário para verem como fica a respiração e a máscara. Acabam por sair cansados como se tivessem estado no ginásio, mas pior do que isso, sem as compras que queriam e que se perderam da memória entre corredor sim, corredor sim, “cheios que nem um ovo”, de gente à espera para pagar. Sim, para pagar, acontece isso em alguns supermercados, em muitos supermercados.

Vou à procura do papel higiénico e afasto uma senhora de vermelho, afasto é como quem diz, peço licença para ver o preço, olho e puxo devagar para não tocar com 24 rolos que valem 48 em qualquer parte do corpo da senhora. Nem penso na distância por causa da Covid-19. Se pensar nisso, não me despacho, vou para casa e levo nada. Tento no outro corredor e está um carro cheio à espera da vez. Pelo menos um ou dois carros, o resto são cestos. Devem estar umas dez pessoas para pagar em cada uma das quatro, cinco ou mais caixas, é hora de ponta, volto a pedir licença para o papel de cozinha, é mais fácil de ver o preço com um olho só e tirar sem tocar em nada. Quando vou ao shampoo já nem vejo o preço, deve ser o verde e vai disto, quero é fugir dali. Não fosse a higiene pessoal e iam ver como era. Antes da pandemia, sem máscara, vá que não vá, ainda suportava uma mão por cima do ombro de alguém que esticava o braço para tirar um pacote de bolacha na prateleira que por azar estava à minha frente, um empurrão quando um carro de compras cruzava com o meu e a dado momento era fechar os olhos e andar. Antes, ainda conseguia levar na brincadeira, era mais ou menos uma diversão. Agora, é mais difícil, as pessoas estão mais baralhadas, a distância deve ser maior mas o espaço dos supermercados não alargou, os clientes, alguns, também não esticaram na boa educação, penso que encolheram até, jogam os produtos para a zona de pagamento quando ainda estamos a colocar os nossos. E olham com aquele ar de dúvida e de tontice, que é o pior ar que se pode ter, como se nunca tivessem ouvido falar em distância. Têm máscara, toda a gente tem, e já é bom. Devem pensar que nas inaugurações é igual, há máscara e isso é suficiente, se é para quem manda, também pode ser para quem faz compras. E pensando bem, se calhar pensam bem. Fazem mal, mas o raciocínio não está mal visto. Podem sempre dizer que viram nas notícias. Claro que vou continuar a ir às compras, não se pode deixar de comer. Vou continuar a indignar-me com estas situações e com os corredores onde passa um carrinho de compras, à justa, de um lado e do outro. Não tenho outro remédio. Já pensei ir sempre ao mesmo, já sei onde estão as coisas e tiro de olhos fechados quando houver muita gente.

Já não sei bem o que fazer, mas depois de me indignar e escrever este artigo, estou melhor. Só por isso, acho que ainda hoje vou às compras. Já estou em condições de evitar um empurrão ao primeiro que me aparecer pela frente com um carrinho igual ao meu para encher de coisas e sem espaço para passar.

As coisas que se passam, em pandemia, na nossa vida...

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