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  • Henrique Correia

Empresários "íntegros" pressionam trabalhadores com Covid-19



Depoimento de um empresário dando conta de "colegas empresários desta terra que obrigam os seus funcionários a ir trabalhar mesmo sabendo que estes testaram positivo para o COVID-19".




Li há pouco uma publicação, no Facebook, de um empresário dando conta da sua revolta face a comportamentos de colegas empresários desta terra que obrigam os seus funcionários a ir trabalhar mesmo sabendo que estes testaram positivo para o COVID-19.

Escreve o referido empresário, Carlo Martins, escreve e muito bem, que "a ganância do dinheiro não vale tudo, muito menos a vida de outra pessoa, até porque ninguém sabe se na casa dos clientes está alguém com uma doença de risco. Pior é que depois aparecem na rua como se fossem pessoas íntegras da sociedade…TENHAM VERGONHA".

Os números até podem contar pouco para quem, de repente, separa infetados de doentes, para aligeirar uma variante que segundo a Organização Mundial de Saúde, não pode ser aligeirada apesar de provocar menor intensidade na doença, menos internamentos e menos mortos. E com a vacina, é tudo menos intenso. Esta é uma realidade, o que não podemos é banalizar ao ponto de fazer passar a mensagem coletiva de uma situação controlada mas sob descontrolo.

E depois há outro problema, que é precisamente aquele que este empresários retrata na pública do Facebook. O número de infetados pode ter pouca relevância do ponto de vista da pressão hospitalar, mas se for a este nível de milhares por dia, terá naturalmente fortes implicações no mercado de trabalho, atendendo aos dias de isolamento, que são menos, mas que obrigam a uma ausência laboral através das baixas, pagas pela Segurança Social, mas que deixa os empresários de "cabelos em pé" com falta de pessoal, alguns poderão ser mesmo obrigados a fechar se este ritmo de infeções continuar.

Só que nestes momentos, vem ao de cima aquilo que diversas vezes já se disse relativamente ao tecido empresarial madeirense, onde há empresários responsáveis, respeitáveis, cumpridores, muitos felizmente, mas onde existe uma faixa de mal formados, mal preparados, que apenas conseguem ver o lucro e têm os trabalhadores, não como ativos da empresas, mas sim como números da empresa. Não raras vezes, são esses que dizem que não encontram trabalhadores e andam na rua "como se fossem pessoas íntegras", como escreve o empresário Carlo Martins.

É por estas e por outras que a relação empregado/empregador não pode ser vista apenas pela vertente do contratado, mas também do contratante. E os políticos não podem, sistematicamente, colocar o ónus no trabalhador, como se todos não quisessem trabalhar, e encobrir todas as irregularidades que algumas empresas cometem, diariamente, sem que sejam fiscalizadas. Tudo em nome das estatísticas, porque os governos, tal como alguns empresários, trabalham para as estatísticas e deviam trabalhar mais com as pessoas e para as pessoas.

Quem disse que a produtividade se faz trabalhando 15 e 16 horas por dia? A produtividade faz-se com gestão de ativos. Pena que poucos saibam o que isso é.

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