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  • Henrique Correia

Gestor "parte a louça" toda: convocado para debater estratégia já pronta

André Barreto: "Como se compatibiliza imobiliária a rodos, os novos Dubais e as Manhattan dos pequeninos com isso do destino Natureza, das flores, das serras e do mar?"; "Sei de uma empresa que conseguiu o feito de mandar 32 colaboradores de baixa, em Abril de 2020, sem que isso tenha suscitado qualquer dúvida a ninguém".




O gestor hoteleiro madeirense André Barreto publicou um escrito, na sua página do Facebook, uma reflexão que bem pode dizer-se que parte a "louça toda", como bem diz o povo, revela que "o rei vai nu" em muitos aspectos. Fala nos aproveitamentos da pandemia, diz que não aprendemos nada com o que nos aconteceu, voltamos ao mesmo, ao ponto de partida onde alguns se abarbatavam como podiam a pala de meios, neste caso da prevenção à Covid-19.

Esta reflexão de André Barreto é forte como há muito não se via. E faz revelações com conhecimento de causa e que colocam em "xeque" muitas estruturas cuja responsabilidade deveria ser uma e é outra.

O hoteleiro denuncia, por exemplo, ainda que dizendo saber que "não conseguimos arranjar pessoas para trabalhar em algumas funções mais específicas porque há malta que acumula o subsídio de desemprego com uns carunchinhos pagos por fora": "Sei de uma empresa que conseguiu o feito de mandar 32 colaboradores de baixa, em Abril de 2020, sem que isso tenha suscitado qualquer dúvida a ninguém. Sei que há empresas que continuam a não declarar rendimentos e que todos olhamos para isso de forma natural. É que, neste ambiente de saque fiscal, só não foge quem é burro ou quem não consegue. Porque querer, queremos todos! Resolver, olhando para o problema tal como ele existe, isso cá não, até porque ninguém pede que o façamos… Sou só eu que sei disto?"

Mas faz outra revelação entrelaçada com um pedido para que lhe expliquem devagarinho: "No mesmo dia em que recebo um email a solicitar presença numa reunião de discussão sobre a revisão da estratégia para o turismo, que pelos vistos foi afectada pelo Covid (não sei se apanhou o vírus ou se teve um contacto directo com alguém infectado mas alguma coisa grave parece ter sucedido, apesar da respectiva implementação não ter nunca parado…) e que me deixou muito feliz por entender ser importante fazê-lo (novo parêntesis para explicar que não pelas mesmas razões que assistem a quem o mandou rever), anunciam-se estratégias para o imobiliário, com "side dish" de "vistos gold" à mistura.

Para além da óbvia coincidência de interesses entre esta decisão e alguns dos últimos investimentos feitos por vocês, sabem que eu sei que vocês também sabem quem foi que os está a fazer, como se compatibiliza imobiliária a rodos, os novos Dubais e as Manhattan dos pequeninos com isso do destino Natureza, das flores, das serras e do mar? Não basta o que já deixaram fazer a este território?

Diz o povo que o pior cego é o que não quer ver. Eu, que não critico nenhum dos que anda a fazer o que as regras permitem que se faça, não deixo de entender que temos o que, aparentemente, queremos. Mesmo aqueles que, como eu, queriam outra coisa..."

O gestor hoteleiro escreve que "somos uma sociedade de corruptos e, pior ainda, de corrompíveis. Funcionamos e organizamo-nos desta forma; é assim que nos sentimos confortáveis. Não interessa a justeza das medidas mas sim se a coisa funciona para mim e para o meu bando. Não estou a pensar em Sócrates, Varas, Salgados ou Rendeiros mas da população em geral; nós todos!...Em cima deste enorme e bem organizado esquema, que os subsídios, as ajudas, os PRR’s, os fundos e todas estas formas de distorção do normal funcionamento da economia permitem, potenciam e que aumentam exponencialmente as dependências (claro!), temos ainda um problema de ignorância.

Este tipo de ignorância – “self inflicted”, uma escolha das pessoas – que optam por não ver, não ouvir nem saber, é a pior de todas e não tem a ver com falta de formação ou de informação. Somos enganados porque queremos sê-lo e até agradecemos, no final!"

André Barreto fala do Plano de Recuperação e de Resiliência e pede: "fiquem com o PRR todo mas com a condição de, este acabando, não voltarmos ao mesmo. Para isso já basta a TAP, a Carris ou, numa lógica mais regional, as Sociedades de Endividamento. Perdão, Desenvolvimento!"



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