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  • Henrique Correia

Há rescisões e não despedimentos no Santuário; até a Igreja "joga" com as palavras

Ficámos esclarecidos: não são despedimentos, são rescisões e só se o funcionário pedir

A notícia que o Santuário de Fátima ia proceder a despedimentos de funcionários, em função da crise que levou menos gente ao espaço, menos esmolas, menos dinheiro a entrar, causou algum desconforto, para não dizer muito, no universo dos católicos, acredito mesmo em algumas cúpulas da Igreja, apesar do histórico dizer que, nestas situações, a avaliação é sempre feita mais pelo terreno do que propriamente pelo divino. Custa a perceber este posicionamento, foi com grande dificuldade que a mensagem passou relativamente a despedimentos, a tal ponto que tanto o Santuário como a Conferência Episcopal, sentiram necessidade de esclarecer, publicamente, que afinal não haverá despedimentos, apenas um “enfrentar os próximos tempos, que continuarão marcados por forte pandemia, através de medidas de reforma do tempo de trabalho ou sua antecipação, de acordos mútuos, em todo o caso sempre por iniciativa dos funcionários”. Ficámos esclarecidos: não são despedimentos, são rescisões e só se o funcionário pedir. E se calhar, ainda querem que a gente acredite nisto. Se a primeira versão era difícil de assimilar, esta segunda é aquilo a que podemos chamar de “pior a emenda do que o soneto”. Até a Igreja Católica, quando "chega a dentro”, não se põe cá com meias medidas e joga com as palavras mais depressa do que rezar uma avé maria. Sou católico, acho que cada um tem a sua fé e é preciso que seja respeitado por isso, Fátima é um local de culto, de um simbolismo único, mas há coisas que são mesmo difíceis de entender quando se trata de falar claro, de se chegar à frente, num momento complicado para a vida dos portugueses. Estou mesmo a ver para aí uns 60 funcionários do Santuário, em nome do espiritual, pedindo para sair e, com isso, colaborar na boa gestão daquele local de culto e de oração. Até pode acontecer isso, mas é difícil de acreditar. Sobretudo sabendo, neste País, a linha muito ténue que separa os despedimentos das rescisões, os despedimentos que são rescisões e as rescisões que são despedimentos, com reflexos na saúde mental de quem está na linha de fogo das saídas , não raras vezes, é obrigado a assinar uma rescisão para poder andar para a frente, tantas as pressões que são feitas de gente com cara de santo. A Igreja tem responsabilidades acrescidas neste momento da vida em Portugal. Deve gerir recursos, o dinheiro não cai do céu, é verdade, mas neste contexto de pandemia, até é ridículo falar em rescisões, nem deveria equacionar isso, mesmo sabendo que o Santuário, como o resto do mundo, perdeu dinheiro. Havendo menos peregrinos, há menos receita e por isso é difícil manter as despesas. Mas isso seria compreensível numa empresa qualquer, não num espaço da Igreja, cuja função é acolher, compreender, ajudar. E é para isso mesmo que tem ajudas do Estado, sob múltiplas formas, de impostos, de apoios, de verbas para construção de templos. As instituições da Igreja têm uma função muito importante, o Estado agradece, mas são ajudadas para ajudar. Não para rescindir contratos nesta altura, deixem isso para outra altura. Nesta, fica mal.Diz o Conselho Permanente da Conferência Episcopal que “o Santuário continua a realizar a sua missão na promoção da mensagem atualizada de Fátima, no bom acolhimento dos peregrinos, no exercício prático da dimensão social, na gestão e racionalização dos meios e estruturas, um processo de sempre e mais urgente neste tempo de pandemia”. Tudo isto é verdade. Ninguém retira importância ao Santuário e à Igreja Católica. Mas é preciso que a prevalência do lado humano seja uma realidade, caso contrário será mais do mesmo. De muito patrão, às vezes sem escrúpulos, há aos magotes, ainda se espera tudo. Da Igreja, não. Se calhar, ainda pedem a um despedido para rezar. Despedido, não, alvo de rescisão amigável e a pedido. Há coisas fantásticas...


NOTA: Já agora descubra as diferenças:

Despedir: mandar sair,

Rescindir: cortar, quebrar, tornar nulo



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