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  • Henrique Correia

Iliteracia em Saúde leva à irresponsabilidade; é preciso comunicar bem e perceber bem

A Comunicação é um eixo essencial na preparação e resposta a uma emergência em Saúde Pública

A palavra Iliteracia, por si só, é associada a uma incapacidade e é depreciativa quando referida na sua exata aplicação do que quer mesmo dizer, uma incapacidade de perceber ou interpretar o que é lido, analfabetismo. Assim, de repente, não é bom. Mas só se for mesmo numa visão global. Se falarmos, por exemplo, em iliteracia em Saúde, a palavra deixa de ter esse peso da apresentação isolada e já abrange um universo alargado da população. Pode ser da forma como se explica, sendo que a Saúde é um setor tecnicamente difícil de explicar e os seus autores nem sempre estão aptos a trazer a discussão para um patamar mais abrangente e entendível. Pode ser das dificuldades de interpretação que levam a dificuldades de perceção relativamente às atitudes. E quando não se percebe, não se sabe o que fazer.

Num contexto da pandemia da Covid-19, dentro do que é a Saúde no seu todo, já de si difícil de entender, essa situação agrava-se. O caudal informativo é grande, todos os dias, além do desconhecimento que a doença ainda encerra e que viabiliza um conjunto de informações diferentes, por vezes contraditórias, diariamente.

Mas além dos contornos técnicos da Saúde, mais complexos, o que acontece mesmo tem a ver com a informação básica, de pequenos comportamentos, aqueles considerados fundamentais como medidas de prevenção, mas que ainda estão ligados a uma certa iliteracia em Saúde, neste caso em Covid-19, que atinge uma grande faixa da população, levando-a a comportamentos irresponsáveis mesmo que a sua formação académica possa, de algum modo, indiciar outras atitudes e outra capacidade de interpretação sobre a forma, os contéudos, o rigor, a conjugação de tudo isso com o contributo individual para o bem coletivo. O resultado é muita gente sem máscara onde deve usar, jovens aglomerados na noite, sem proteção e sem distanciamento, sem responsabilidade em síntese, máscaras pelo queixo, nas mãos tocando em tudo e mais alguma coisa, sem higienização das mãos periódica. Máscaras pelo chão, grupos nos cafés falando uns para cima dos outros. E o mais grave é que não é só na população anónima, há eventos oficiais onde os participantes até podem estar com máscara, mas distanciamento é coisa só para aconselhar ao povo, não para praticar.

E é por tudo isso que a Direção-Geral de Saúde publicou, recentemente, um manual de “Literacia em Saúde e a COVID-19: Plano, Prática e Desafios”, lançado precisamente no Dia Mundial da Literacia.

O documento aborda a comunicação como sendo "eficaz antes, durante e após a emergência de Saúde Pública", sendo importante "fornecer à população informações direcionadas para influenciar o seu comportamento e reduzir o tempo necessário para controlar a emergência. A Comunicação é um eixo essencial na preparação e resposta a uma emergência em Saúde Pública, sendo fulcral garantir a confiança na informação prestada, clareza, transparência, rapidez, respondendo de forma efetiva às preocupações da população (OMS, 2017). A Comunicação e a Literacia em Saúde são dependentes entre si, daí a importância da estreita articulação no planeamento da resposta e no estabelecimento de redes de comunicação alargadas.".

No documento de apresentação, da DGS, refere-se que "a Literacia em Saúde é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o conjunto de “competências cognitivas e sociais e a capacidade da pessoa para aceder, compreender e utilizar informação por forma a promover e a manter uma boa saúde”.

Através da avaliação de indicadores de Literacia em Saúde, conclui-se que “78,8% dos inquiridos procura informação sobre cuidados de saúde, 94,4% consegue aceder a informação sobre COVID-19 e 56,3% afirma nunca, ou apenas às vezes, sentir dificuldade em compreender informação de saúde sobre a COVID-19”.

No manual são explicados os quatro eixos principais nos quais se centra o Plano de Intervenção da Literacia em Saúde para a COVID-19 em Portugal: boas práticas em literacia em saúde, health literacy intelligence, comunicação e mobilização social.

A publicação aborda também os produtos, materiais e canais de promoção da Literacia em Saúde, bem como os desafios e oportunidades nesta área.

Em contexto de pandemia, pode ler-se nas conclusões, “torna-se imprescindível, desenvolver/aplicar ferramentas de Literacia em Saúde, tais como um plano de comunicação assertivo, adaptado às diferentes fases da pandemia e baseado na melhor e mais atual evidência científica, nas principais premissas da promoção da Literacia em Saúde e na mobilização social, por forma a chegar a todos da forma mais direta e efetiva, não deixando ninguém para trás”.

Adicionalmente, “a monitorização e a avaliação de indicadores de perceção de riscos e de comportamentos deve continuar como prioridade, , garantindo a customização da informação em cada fase desta pandemia”.

Conheça o documento em pormenor:


Literacia em Saúde e a COVID-19: Plano, Prática e Desafios”.

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