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  • Henrique Correia

Longe da campanha, perto do abraço



Vale pouco a discussão sobre se o vice presidente deve ou não suspender as suas funções para ser candidato de corpo inteiro. Só valerá a pena um debate sério se for para encontrar legislação que suspenda as funções de todos os candidatos.



"Dá-me um abraço que seja forte

E me conforte a cada canto

Não digas nada, que nada é tanto

E eu não me importo"



Andei a passar os olhos pelos últimos tempos da atividade política, pelos jornais, pelas redes sociais, e num ápice, sem fazer muito esforço, lembrei-me de uma canção de Miguel Gameiro, que tem a ver com o "meu tempo", embora não seja muito fã desta expressão. Mas serve. A canção tem o título "Aquele Abraço", com esta parte acima reproduzida só para melhor enquadramento do escrito. Como se o abraço fosse, assim, um sinónimo de eleições, como se já não houvesse campanha, nem pré campanha, nem qualquer coisa que expresse se estamos ou não perto ou longe das eleições. Estamos, claro, no ano das eleições, de pandemia também, mas de campanha, não nos inadequados prazos das entidades reguladoras, nunca cumpridos, mas nos meios no terreno, que foram evoluindo, chamemos assim, enquanto a obsoleta comissão de eleições vai atuando à moda do "papel pardo", só na parte do mais escuro, porque até é menos submetido a tratamentos, mais ambiental.

Vamos ser claros, a campanha para as eleições autárquicas, onde o Funchal assume contornos do "tudo ou nada", esperemos que não o "vale tudo", já está em curso, com muita intensidade, nem é através dos partidos, é mais pelos jornais e pelas redes sociais, espaço desvalorizado quando não interessa, mas valorizado na "hora do aperto", porque apesar das notícias de jornais, quais cadernetas dos nossos tempos de miúdos, as eleições ganham-se ou perdem-se em muitas plataformas, até porque os jornais - é só ver os números- circulam cada vez menos e os seus posicionamentos online só agora começam a assumir o reposicionamento que deveria ter ocorrido há mais tempo.

Nem de propósito, o líder da JSD/Madeira reagiu, com o "anúncio" dos candidatos às freguesias do Funchal nos dois jornais, classificando de anúncio o que deveria ser uma notícia. Confusões naturais deste novo tempo: "Hoje, o Funchal acordou com o anúncio das opções de Pedro Calado para as 10 juntas de freguesia do Município. Gente capaz". Caso para dizer que um "acordar" assim é outra coisa.

A diferença das candidaturas é pouca, neste domínio da comunicação, são demasiado previsíveis no uso dos jornais, às vezes no mesmo dia e para os dois, como foi o caso de hoje, com o PSD, nos candidatos às freguesias do Funchal. Mas é o que vai acontecer com a candidatura de Miguel Gouveia, dos outros partidos também. Tudo muito igual, dois em um, percebe-se porquê, já não é por medo de retaliações, parece que estas já não estão no "ativo", mas mais porque o mesmo dono facilita entendimentos, por acerto de conveniências.

As eleições estão longe e ali tão perto. E mesmo que venha, para cima da mesa, o debate sobre o exercício dos cargos e a ação politica dos candidatos, haverá sempre um aproveitamento claro das máquinas disponíveis. No caso, o vice presidente desenvolve ações públicas enquanto número dois do Governo, mas logicamente tira proveito disso para capitalizar simpatia, que lhe será util mais tarde. O mesmo se passa com Miguel Gouveia, que no meio da atividade enquanto presidente da Câmara, vai aproveitando para relevar a ação dos seus candidatos e do trabalho feito, elogiando os anúncios dessas mesmas candidaturas passadas e publicadas nos jornais de preferência, que com estas estratégias de fora para dentro, começam a ser mais de preferência do que de referência.

Vale pouco, por tudo isso, a discussão sobre se o vice presidente deve ou não suspender as suas funções para ser candidato de corpo inteiro. Só valerá a pena um debate sério se for para encontrar legislação que suspenda as funções de todos os candidatos, relativamente aos cargos que ocupam. Em tempo suficiente para não haver estas "misturas" e um claro aproveitamento de meios, onde quem tem a máquina governativa, regional ou local, tem vantagem.

Enquanto isso não acontecer, vai ser sempre aquele "abraço". Muito cedo, sentido e forte, para dar força e sentido à "causa".


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