Buscar
  • Henrique Correia

Médico, infetado, conta a pressão social dos que são (ou pensam ser) "Covid-"

Atualizado: 16 de Nov de 2020

"Peço então que não julguem sem saber. Não apontem sem pensar que um dia podem acordar do outro lado da ponta do dedo. Acreditem que não é preciso muito!"


O médico dentista Pedro Nunes veio a público, na sua crónica frequente no JM, trazer um tema que todos falam mas poucos têm a coragem de abordar, talvez porque a Covid-19 tenha trazido à superfície das nossas mentes, muito do que, no fundo, está guardado, e reprimido, no espaço que, diria, corresponde ao "pacote" da discriminação que todos temos e que não queremos dizer que temos. É mau, mas é verdade. Há discriminação, numa mistura de coscuvilhice e um "chega-te para lá", queremos saber nomes, os filhos, a mulher, o marido, onde moram, onde trabalham, os infetados com Covid-19. Para nem estar perto. Perto só a família. E quando nenhum tem Covid.

É realmente um caso sério, é realmente motivo de reflexão, aquilo que a Covid-19 trouxe, em comportamentos, na vida do dia a dia, também aqueles princípios que pensávamos elementares, como adquiridos, mas que efetivamente não são. O dr. Pedro Nunes, que no seu artigo assume o teste positivo, tocou na "ferida", no seu estilo de escrita entre a crítica mordaz com humor e sentido de oportunidade. Teve a coragem de assumir, e isso já é meio caminho andado para marcar a diferença. E ao fazê-lo, presta um grande serviço à comunidade, sensibiliza, "abana" consciências, chama a atenção para a necessidade de vivermos, cada vez mais, numa sociedade solidária, diferente do tempo da "lepra", embora pareça igual. Nas atitudes, nas mentalidades. Não conhecem a Covid mas sabem que a eles não chega. Até ao dia.

Pedro Nunes esceve: "Exponho-me assim por não ter nada a esconder, mas também por solidariedade para com todos os que sofrem esta pressão social de ser covid + pela mão dos que são (ou pensam ser) covid -. A sorte destes é que serão positivos numa altura em que já serão mais os infectados do que os saudáveis. Sim, porque, isto é, como uns chifres. Felizes dos poucos que não vão ter. Dos outros, uns vão saber e outros não. Talvez até venham a ser já numa fase em que serão os negativos a ficar em casa e os positivos na rua. No tempo em que teremos lugares nos restaurantes para covid’s ou não covid’s. Mais ou menos como tínhamos para fumadores e não fumadores.  Isto vai ser o novo normal."

Diz mais: "Peço então que não julguem sem saber. Não apontem sem pensar que um dia podem acordar do outro lado da ponta do dedo. Acreditem que não é preciso muito! Repito. Não é preciso muito. E, salvo raras excepções, do covid recupera-se. Já da má língua..."

O médico faz um apelo aos pacientes, pelo meio "mete" nova "farpa", bem ao seu conhecido estilo, à diferença entre o contágio social e o contágio profissional: "Garantam as vossas marcações. Prossigam os vossos tratamentos. No meio social o contágio é uma realidade presente. Já no meio profissional, não sendo nulo, é praticamente irrisório! Acreditem que mais depressa um médico dentista é contaminado por um paciente do que o contrário. Confiem". Na verdade, Pedro Nunes expôs uma realidade que se esconde para debaixo do tapete. Os doentes sofrem, em silêncio, o medo da divulgação da identidade é tremendo, o peso da penalização social é enorme, com diferentes repercussões consoante a atividade e o peso. O "carimbo" da irresponsabilidade não sai, assim, de ânimo leve. Como alguém me dizia, um destes dias, parece que temos "Estrela de Davi" ao peito, que como se sabe foi símbolo usado para facilitar a identificação dos Judeus no tempo da Alemanha nazi.

Nada mais tremendo. Arrepia, só de pensar...

134 visualizações