Monte: Largo da Fonte "moribundo" à espera da Grande Noite
- Henrique Correia

- 13 de ago. de 2024
- 3 min de leitura
Nunca mais o Monte foi o mesmo, nunca mais o Largo da Fonte, que já antes ia ficando para ali como se sobrevivesse sozinho, foi o mesmo.







Foi um dia normal de Novena, era a penúltima, da "Boa Vontade". A Igreja foi o único espaço que encontrei a fazer lembrar as Festas do Monte de um passado tão perto e tão distante. O Monte, visto daqui para onde a memória nos leva, andou pouco, o que é bom por um lado, mas ao mesmo tempo é mau por outro, por expressar alguma atitude passiva de quem manda mesmo tendo em conta o revés daquela tragédia que ocorreu a 15 de agosto de 2017 com a queda da árvore no Largo da Fonte que provocou 13 mortos. Um momento marcante para o que veio a seguir. Até hoje. Nunca mais o Monte foi o mesmo, nunca mais o Largo da Fonte, que já antes ia ficando para ali como se sobrevivesse sozinho, foi o mesmo. E só não está pior porque houve o Centro Interpretativo, na gestão camarária de Miguel Gouveia, a concluir a recuperação de um espaço abandonado durante anos.
As Novenas nunca tiveram muito a ver com a véspera do Monte, de 14 para 15. Em número de pessoas, a véspera recebe milhares. Mas aquilo que pudemos ver segunda-feira, e os relatos que tivemos de dias anteriores, foi deveras confrangedor relativamente ao que eram as Festas do Monte de outros tempos, mas de tempos relativamente recentes. Perderam brilho, perderam pessoas e o centro de tudo, o Largo da Fonte, estava um "deserto", meia dúzia de espaços, um grupo musical preparando a atuação para mais tarde, talvez chamando algumas pessoas, mas tudo muito sem vida, valendo a devoção que é inquebrantavel aconteça o que acontecer. Olhando como quem vê mesmo, vendo como quem vê pensando, faz refletir, ainda que não possamos ignorar os esforços que as entidades locais têm vindo a fazer para "chamar" gente para uma Festa que fazia parte do calendário apesar do vasto leque de iniciativas que, a dado momento, começaram a "atropelar-se" na oferta de festas e arraiais.
O Monte de Nossa Senhora, o Monte dos carros de cesto, o Monte do Imperador, e agora o Monte do Museu do Romantismo, tem História, tem Memória, mas falta-lhe vida, falta estratégia para fazer renascer a porta de entrada, o Largo da Fonte, libertando-o do estigma do trágico acontecimento, e não permitindo restaurantes que abertos pareciam fechados e que estão fechados para obras, que, esperemos, possam resultar num espaço que corresponda à qualidade do ponto turístico, mas que orgulhe, sem visão elitista, todos os madeirenses e residentes na freguesia.
A devoção é, hoje, o que perdura. E no fundo, a base que dá corpo ao Monte enquanto centro de atração também turística. A Igreja, a capela recuperada nas Babosas e o "resistente" espaço no Largo da Fonte, sobrevivem no tempo e alimentam a Fé de cada um, à sua maneira, seja mais ou menos crente, mais ou menos praticante. Mesmo que alguma música "pimba", que "fugiu" para o adro depois da tragédia, irrompa pela Igreja e confunda quem vai meditar. São festas e a convivência do religioso com o profano adapta-se pelas circunstâncias.
No resto, deixo para reflexão para não vermos o Monte fechado à criatividade como uma "fatalidade": Mexam no Monte, mexam-se com o Monte.
Para que a falta de memória não venha a toldar reflexões e debate, ficam palavras de Pedro Calado, então presidente da Câmara, nas Festas do Monte de 2022: "Está em estudo «a requalificação do Largo da Fonte», projecto que é um compromisso da autarquia», sendo que o objectivo é que esteja «pronto o mais rapidamente possível».



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