Buscar
  • Henrique Correia

"Não acredito numa Igreja simplesmente digital. Só à distância não vai dar"


A opinião é do madeirense D. José Ornelas, Bispo de Setúbal e presidente da Conferência Episcopal que diz, ainda, que "há um aumento de pessoas que pedem alimentos. E são pessoas de quem não se suspeitava".


D. José Ornelas, madeirense, nascido no Porto da Cruz, Bispo de Setúbal e presidente da Conferência Episcopal, está preocupado com a pandemia, não sabe se esta fase irá afastar as pessoas da Igreja ou quais as consequências para o futuro: "Vu preocupar-me a seguir, mas também me preocupa. Não me preocupo com aqueles cristãos que já vinham à Igreja, embora também tenhamos de nos perguntar o que é que isso significa. Nós precisamos de ter uma Igreja presencial, não acredito numa Igreja simplesmente digital, de transmissões e mesmo de redes sociais", disse numa entrevista ao DN/TSF.

Nessa entrevista, considera que "vai ser um mundo que tem de integrar tudo isso numa nova forma de estar. Não é simplesmente um meio, é uma nova forma de ser gente, de se relacionar, onde isto também tem espaço, mas a não presença ao construir verdadeiramente a Igreja é como construir família, construir amizade. Só à distância não vai dar".

D. José Ornelas não esconde estar preocupado, isso sim, e sobretudo, com dois tipos de pessoas: "os mais frágeis, porque os mais frágeis, os mais velhinhos têm um certo medo de ir, gostariam de ir, mas têm receio, e vão-se habituando a uma transmissão, a uma coisa à distância. O que é que eu noto, e tenho experiências muito concretas disso? Que essas pessoas vão ficando cada vez mais distanciadas e retraídas para si próprias. O isolamento nesta fase é um dos grandes problemas, mesmo para a saúde mental, espiritual e relacional. E as crianças, porque quando fechámos as creches e as nossas crianças ficaram em casa, de repente, começaram a sentir-se afastados dos amigos, dos velhinhos. Porque dizer a uma criança que não se dá abracinhos, não se dá beijinhos, o que é que vai sair destas crianças em termos do seu crescimento normal?"

Diz que em relação à Igreja é a mesma coisa. "Não me preocupa? Preocupa-me muito porque já levamos quase um ano em que as crianças não aparecem na igreja, a maioria delas, mas também passaram meses sem aparecer nas escolas e nas creches, sem verem a educadora, que era o segundo grau da afetividade depois da família. E é uma afetividade que se alarga para o mundo".

O Bispo de Setúbal vive, no dia a dia, a experiência das dificuldades da comunicade em contexto de crise sanitária, mas tambékm económica. Confirma que "há um aumento de pessoas que pedem alimentos - e quando estamos a esse nível, estamos no básico. E são pessoas de quem não se suspeitava. É gente que tinha o seu emprego, que tinha a sua vida arrumada, que habitava uma casa razoável. As casas, em consequência do boom imobiliário que aconteceu na capital, subiram de preço e muita gente, agora sem trabalho, vê-se na impossibilidade de ter casa e também de ter uma capacidade de sustentar a família. Há gente que diz que tem dificuldade em ter duas refeições sobre a mesa".

4 visualizações