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  • Henrique Correia

Não temos vergonha da "pobreza sem vergonha" e da "pobreza envergonhada"?

E pensar num pacto, sem cores, para intervir local e regionalmente?



A pandemia trouxe um "estado novo" à sociedade, que obviamente nada tem a ver com o "Estado Novo" que governou Portugal, de forma autoritária, durante mais de 40 anos. Embora este "estado novo" também seja por razões preocupantes, mais especificamente sociais e económicas em resultado de um acontecimento que o homem não pode controlar. Ao contrário do outro.

Mas a dado momento, falando deste período viral, até parecia que isto do confinamento, que atingiu indiscriminadamente setores e classes, sem exceção, tornou-nos iguais pela primeira vez na vida, poderia funcionar como um catalisador, do género tirar qualquer coisa de positivo de um acontecimento nefasto para o futuro dos países, das regiões, das populações. Poderíamos sair melhores, mesmo que não saíssemos com mais dinheiro na conta. Mas não, não estamos melhores, estamos piores em quase tudo, mas o que deixa marcas, mesmo, é a pobreza que cresce a cada dia que passa, mais sem abrigo, mais pobres extremos, mais pobreza "envergonhada", que já existia em parte mas que agora subiu exponencialmente, mas além disso mais pobreza em pessoas, em famílias, que antes trabalhavam, não ganhavam muito, é certo, mas conseguiam ter as contas em dia, ter uma vida modesta mas cumpridora, mas que, num abrir e fechar de olhos, ficaram sem qualquer margem de manobra para garantir o equilíbrio de outrora. Os que ainda ganham, muitos fruto dos apoios que não vão durar sempre, mas que até final do ano "escondem" o verdadeiro flagelo, ainda têm para pagar o mínimo, só que o mínimo não chega e acumulam-se dívidas, os bancos preparam-se para o crescimento do malparado, o recurso às entidades oficiais e às organizações de solidariedade subiram de forma muito acelerada.

E se acham que 2021 será o ano da recuperação, é melhor pensar como ficarão as famílias quando acabarem os subsídios e rapidamente chegam à conclusão que isto não será fácil para o próximo ano e logo vemos para 2022.

Sendo o tecido empresarial madeirense composto, maioritariamente, por micro empresas, não é difícil prever as dificuldades, o encerramento definitivo de muitas, o engrossar do número de desempregados e a constante perda de rendimento das famílias, com consequentes efeitos na atividade económica. E se o turismo não retoma urgentemente, a situação complica-se.

Há poucos dias, uma informação da Câmara de Santa Cruz, podia ser outra qualquer que os dados não serão muito diferentes, dava conta de um apoio a 700 agregados, através de produtos alimentares. Estamos a falar do que falta a essas famílias e a outras dos vários concelhos. Não é um telemóvel nem vestuário, é mesmo alimentação básica. Quem não passa nem consegue avaliar.

Face a este enquadramento, é preciso que haja um plano regional integrado, um pacto entre órgãos eleitos, independentemente das orientações partidárias, no sentido de ajudar os "pobres sem vergonha" e a "pobreza envergonhada". É difícil, não é? Ainda por cima a um ano das eleições autárquicas, em que as questões políticas superam as necessidades do povo e fomentam a "política de capela" .

A convergência de meios, do Governo e das Câmaras, junto com juntas, casas do povo e associações, privilegiando o essencial em vez do acessório, poderia trazer resultados mais positivos para que a Madeira possa intervir já num problema que, por agora, é só a ponta do iceberg.

Mas sabemos bem, não é? Na política, às vezes, o acessório é o essencial.

E é assim que vamos ficando mais pobres. Em tudo...


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