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  • Henrique Correia

O (des)respeito por órgãos e instituições


Como diz o povo, mudaram as "moscas" mas a matriz é a mesma. Pior, a matriz agora faz de privada.



Em toda a vida jornalística, passei por quase tudo e conheço todos os mecanismos da dialética entre comunicação social, políticos e empresários, em diferentes conjunturas e podendo constatar muitas situações, com tudo o que tem de bom e de mau, profissionalmente e até como ganho pessoal, umas vezes para aprender, muitas vezes para ver o que não se deve fazer, mas que se faz sem sequer o povo dar conta. Mas sempre foi assim, só que essa dialética, neste aspeto, está pior, está mais cúmplice, mais comprometedora, mas querendo demonstrar uma equidistância que não existe. E agora está quase toda assim.

Nem sempre consegui escrever o que pensava, porque sempre respeitei os patrões que tive, diferentes, mas não tão diferentes como a "plateia" vê. E fico-me por aqui, não sei se terei um dia paciência para colocar preto no branco certas independências tão dependentes que a história, às vezes, transforma em forma de heróis da defesa da liberdade de expressão, por um lado, tão rápido quanto atribui o selo de "vendidos", por outro, porque assim se julga o que se pensa que se vê. Porque tantas vezes o que é, é só aquilo que parece e não vale a pena desmontar que está previamente montado. Mas como se sabe, nem sempre o que parece, é.

Mas hoje, felizmente, escrevo o que penso, de forma modesta mas livre, sempre com um propósito bem definido: os companheiros de profissão, novos, menos novos, merecem-me todo o respeito. As instituições também. O problema é mesmo o sistema, feito por pessoas, claro. Vale o que vale a opinião, mas é a minha e não estou minimamente preocupado com as audiências e com o que pensam os patrões ou os políticos. Passei por situações muito boas no jornalismo, mas também muito difíceis do ponto de vista da gestão, interior e exterior ( por isso não posso dizer, nem digo, que em todo o meu tempo é que era bom, mas em algum do meu tempo foi), mas isso não significa que até ao fim da vida não possa falar. Até porque, em relação a isso, houve decisão de umas sumidades que se serviram e bem para as suas "voltinhas" nos cargos e nos "fretes" e depois fizeram autênticos "saneamentos" para "ajustar contas" a pretexto de uma independência para a qual nunca mexeram uma "palha" para mudar fosse o que fosse. E alguns ainda andam por aí. Por isso, como foi "restabelecida" a independência do jornalismo, é de estranhar algumas situações de dependência e cumplicidades diárias que hoje se observam.

Depois desta "declaração de interesses", acho preocupante o que se está a passar no contexto do desrespeito pelos órgãos eleitos e pelas instituições, neste processo de utilização, generalizada, da comunicação social enquanto papel de substituição de comissões políticas, de reuniões de governo, de reuniões de Câmara, chegando mesmo ao cúmulo de titular notícias sobre o orgao x que vai aprovar hoje uma determinada medida quando a reunião ainda vai ocorrer. E mesmo sabendo-se, perfeitamente, que quem passa a notícia tem maioria para aprovar, na realidade, seria de toda a prudência e comportamento democrático, que a informação passasse, por exemplo, pela notícia na base da apresentação à reunião e não da aprovação pelos jornais, como acontece sistematicamente. Passava-se com inteligência e respeito, dava manchete na mesma, faziam o "papel" mas respeitavam os componentes desses órgãos. Era mau na mesma, mas disfarçavam melhor. Não faziam este "tiro ao boneco".

Não está em causa passar notícias, elas são passadas todos os dias e já fazem parte das governações, regionais e locais, à descarada, mas sim a forma que algumas assumem que até parece que as instituições nem precisam reunir para decidir. Se calhar, não precisam...

Está instituído e aceite por todos, todos ganham assim, o que não significa que esteja correto. Não está mesmo. Não tem a ver com épocas, tem mesmo a ver com a forma como se vê a comunicação social e da forma como todos dependem, hoje, do poder político versus poder económico, este cada vez mais o primeiro poder em Portugal e particularmente na Madeira. Não há regras de separação de poderes. E começa a não haver regras nesta dialética.

Como diz o povo, mudaram as "moscas" mas a matriz é a mesma. Pior, a matriz agora faz de privada.

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