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  • Henrique Correia

"O que me chateia é a cultura do português; acreditamos muito no improviso"


O militar da vacinação, tropa por dentro e por fora, revelou ao "SOL" que "as pessoas estão mais preocupadas com a sua posição do que com aquilo que devem fazer".


O vice almirante Gouveia e Melo, na imagem durante a visita recente à Madeira.


"A Saúde tem muitas coisas... todos os ministérios têm. Este país eram anos para endireitar". A afirmação é do vice almirante Gouveia e Melo, o coordenador do plano nacional de vacinação, em entrevista ao "SOL".

O militar que o governo chamou para a chamada "task-force", para colocar ordem no processo de vacinação, que já estava a descambar, fala de si, do plano de vacinas e do País. Diz, pir exemplo: "O que me chateia é a cultura do português. Como povo, temos coisas fantásticas, mas, ao nível organizativo, acreditamos muito no improviso. Nisto sou muito anglo-saxónico e faz-me confusão a inércia do sistema. As pessoas estão mais preocupadas com a sua posição do que com aquilo que devem fazer".

O vice almirante não tem só a farda militar, é um militar de corpo inteiro, vive a disciplina, quer tudo controlado e admite que, essa obsessão talvez tenha contribuído para não tocar numa gota de álcool.

Diz que, para esta realidade, "a liderança militar pode fazer sentido em termos do que é o nosso ritmo de resolver problemas complexos e encontrar soluções rápidas. Mas o que achava mais correto era uma liderança fora do sistema porque a liderança dentro do sistema é mais difícil de ser recebida. Eu teria feito duas coisas simultaneamente: uma liderança fora do sistema e uma liderança com suporte militar".

O honem que recentemente esteve na Madeira a acompanhar e elogiar o processo de vacinação na Região, define-se: "Sou alto, visto uniforme, tenho voz de comando e sou assertivo. Só essas quatro coisas ajudam logo o processo. Depois, tenho ideias, desenvolvo-as e sou obsessivo. Faço o que tiver de fazer e sou impiedoso com os malandros. Sou super piedoso para as pessoas que fazem bem, erram, mas deram tudo".

Nesta entrevista ao sucedâneo do semanário SOL, agora nascer do SOL, Gouveia e Melo lembra que "a Saúde está em guerra há um ano e fez muita coisa boa. É um sistema muito distribuído. A dificuldade que a Saúde tem é a de ter um comando muito centralizado. Não faz parte do ADN da Saúde ter um comando centralizado. Tem um comando político centralizado, mas depois o comando operativo é muito distribuído. A dificuldade que eu senti foi agarrar num comando operativo distribuído e dar-lhe uma consistência de um plano centralizado. Agora a Saúde tem muitas coisas... todos os ministérios têm. Este país eram anos para endireitar".

Sobre o plano de vacinação para o País, tem esta estratégia: "Hoje nós temos, grosso modo, 50 por cento de primeiras doses dadas e 30 por cento de segundas doses. Daqui a um mês temos 50 por cento de segundas doses e cerca de 70 por cento de primeiras doses. No mês a seguir temos 90 por cento de segundas doses e 70 por cento de segundas doses. O desfasamento é cerca de 20 por cento entre as primeiras e as segundas".

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