Os políticos não são todos iguais, a fórmula de poder é que é...
- Henrique Correia

- 10 de abr. de 2023
- 3 min de leitura
A necessidade de defender a imagem dos governos cega as elites políticas e manipula as bases. E este "negócio" da política de influência não tem partidos, está onde está o poder.

Há uma expressão popular que ajuda a perceber a sensação que temos relativamente à atividade política, que exercida com seriedade e responsabilidade pode ser do mais nobre que existe do ponto de vista do serviço à causa pública, mas exercida levianamente pode ser do mais perverso que existe na delapidação da causa pública. A expressão "são todos iguais" não é a que melhor corresponde à realidade, porque na realidade nem todos os políticos são iguais, mas representa uma leitura do que vai na alma do povo e que, por ser uma imagem criada por associação de casos, dá a ideia de generalização, perigosa como todas as generalizações. Mas fácil de explicar.
Os políticos não são todos iguais. Mas os métodos de poder são. Independentemente dos partidos, há uma funcionalidade igual no exercício da atividade política de poder, sobretudo quando coberta por maiorias absolutas. E tudo o que é absoluto, é absolutamente preocupante.
Vem isto a propósito da forma como funcionam as comissões de inquérito e da instrumentalização que as mesmas sofrem, na sua forma e no seu conteúdo, na República e na Região. O principal objetivo não é esclarecer a verdade, mas sim fazer com que essa verdade "apurada" não cause problemas aos respetivos governos. E não causar problemas é deitar mão dos regimentos e dos meios legais para justificar determinadas posições.
Viu-se esse expediente na Assembleia Regional, na comissão de inquérito às declarações de Sérgio Marques, e na Assembleia da República, na comissão de inquérito à TAP. Com uma diferença substancial para a da República face às questões muito mais incisivas que embaraçam o Governo, coisa que na Região não aconteceu em função de uma certa parcimónia a caraterizar muitas das questões, essencialmente porque o meio pequeno é demasiado pequeno para tornar grande qualquer apuramento.
Além de que o principal "ator" foi chamado, não como essencial, mas como recurso, o que até se deveu ao PCP. Um falha difícil de explicar. Como disse o empresário Luís Miguel Sousa, a Madeira é pequena, toda a gente se conhece. Já nem falamos de corrupção, falamos de cumplicidades de poder, de sinergias que se acumulam e a dado momento já ninguém consegue governar sem isso. E verifica-se isso com os poderes, regional e local, salvo as devidas diferenças, mas muito iguais no exercício das influências, designadamente na comunicação social, por troca com publicidades e notícias passadas a preceito, além dos grupos económicos na esfera das Autarquias, que não configuram necessariamente uma ilegalidade mas uma caraterísticas de poder.
A Comissão da Assembleia da República, visando a abordagem da TAP, teve o mérito da abrangência e das dificuldades de controlar todas as vertentes. E por isso, as revelações foram mais comprometedoras para o Governo e para deputados que reclamam transparência do poder político na Madeira, mas têm comportamentos de dúvidas de transparência quando a centralidade é Lisboa. Lá está um caso em que as atitudes de poder são parecidas mesmo envolvendo políticos de diferentes partidos.
A situação da TAP é insustentável, aquela reunião preparatória nunca deveria ter acontecido e foi preciso este escândalo para que as duas principais figuras de Estado viessem a público manifestar a sua discordância de um "procedimento normal", como o PS tinha dito.
A necessidade de defender a imagem dos governos cega as elites políticas e manipula as bases. E este "negócio" da política de influência não tem partidos, está onde está o poder.





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