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  • Henrique Correia

Pandemia em 2020, Autárquicas em 2021: "Aqui a recomendação é não ficar em casa"

Esta declaração é de Miguel Gouveia que lançou "farpas" ao PSD e CDS ("peço que nos deixem trabalhar") e desafiou os funchalenses ("votem pelo distanciamento")



Já era mais do que previsível que o Dia da Cidade fosse marcado, de forma menos indelével do que seria de esperar, em princípio de cerimónia, mas progressivamente mais agreste para o final, pelas eleições autárquicas de 2021. Razões: Miguel Gouveia vai pela primeira vez a votos na qualidade de candidato; o PSD tentará tudo para recuperar a Câmara que deu caminho ao poder governativo de Miguel Albuquerque. Como se vê, está muito em jogo, até porque é preciso ver, ainda, quem será o candidato social democrata, que se não for forte arrisca muito.

E ao acontecer este enquadramento, também já era certa a existência de um quadro um pouco irracional do debate político, nada independente, assente naquilo que acontece, sempre, quando a política de interesses se mistura com a política ao serviço das populações, que ao contrário do que parece mandam muito pouco além do voto. E até o voto, ainda que sendo a Democracia o menos imperfeito dos sistemas, vale o que vale porque depois os eleitos fazem o que querem, cumprindo o que podem e remetendo o que não podem para um dia destes. Não é visão pessimista, é realista pelo histórico sempre que estamos em fase de eleições, que neste caso parece já ter começado mesmo a um ano de distância.

A pandemia veio criar algum clima de aparente entendimento, até porque os eleitores não entenderiam um ambiente de crispação numa realidade que exigia a união de esforços e não as questiúnculas partidárias. Mas tal como a memória do povo, foi "sol de pouca dura, bastou um chumbo no Orçamento da Câmara do Funchal, que não sendo o fim do mundo, também não é coisa pouca, para despertar o espírito "pandémico" da luta eleitoral, que voltou a dominar o Dia da Cidade quando Pedro Calado veio criticar o facto de o Governo não ter a palavra na sessão solene. No resto, tudo muito igual, o resto contra a Câmara, a Câmara contra o resto. Muito básico, para dizer a verdade. Muito previsível.

E foi neste contexto que Miguel Gouveia, entre o anúncio de candidatura do Funchal Capital Europeia da Cultura em 2027 e os cinco milhões do empréstimo, como disse, para enfrentar as consequências da Covid-19, enviou a meio da intervenção uma mensagem tendo em vista 2021 e um apelo aos funchalenses: "Tal como em relação à saúde pública, não tenho dúvidas de que os funchalenses saberão desempenhar um papel fundamental na contenção destas adversidades. Aqui a recomendação é não ficar em casa e, quando a oportunidade chegar, votar pelo maior distanciamento político possível em relação a todos quantos têm destratado a nossa cidade, exclusivamente por causa das legítimas escolhas democráticas que os funchalenses fizeram".

Num dia como hoje, referiu Miguel Gouveia, "o que peço a PSD e a CDS não é apoio; o que peço é que nos deixem trabalhar! E que por uma vez, nestas circunstâncias extraordinárias que vivemos, tenham o discernimento de pôr os interesses dos cidadãos à frente da sua sobrevivência política e dos vícios das suas debulhadoras partidárias.Talvez esse dia ainda chegue. Se não chegar, os funchalenses têm a mesma garantia que tiveram durante os últimos sete anos: saber com quem podem contar".

A um ano das eleições, é isto. O que não será daqui para a frente, onde é de esperar uma luta cada vez mais intensa e mais irracional, como manda a tradição da política partidária. O Funchal é apetecível e vamos estar atentos a este crescendo de duelos e sempre, alertando no entanto os intervenientes, que o enfado que às vezes provocam no eleitorado, faz com que este não entenda nada do que ouve e fique sem saber do que fala. Se calhar é isso que interessa.

Mas não se distraiam da Covid-19.


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