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  • Henrique Correia

Quando o ouve não leva "h"...

Atualizado: 30 de out. de 2020


Foi uma "empreitada" sem fiscalização e acreditar de olhos fechados sem saber o que estava escrito. Também não pode. Mas aconteceu. E depois? Nunca ninguém errou na vida? Eu já...



As chamadas redes sociais são tramadas. O espaço, em si, serve para tudo, é preciso filtrar, é preciso um pouco mais, ter a capacidade para filtrar, amplificam imagens, erros, achincalham pessoas, avaliam sem avaliação, concluem sem ler, lêem sem perceber e percebem de tudo e de nada ao mesmo tempo, sem que se perceba o que percebem na realidade. A globalização trouxe de tudo, o espaço é bom, é importante num determinado contexto da comunicação que hoje se faz, cada vez mais célere. Mas o espaço é, também mau, implacável aos lapsos. E explicar é quase impossível, quando pensamos já a "crucificação" está feita.

Vem isto a propósito de um episódio, lamentável sem dúvida, que efetivamente não podia ter acontecido, muito menos numa manifestação de professores, muito menos numa manifestação do Sindicato dos Professores. Um filão para tantos lugares comuns, como por exemplo "quem não tivesse um professor destes..." ou "são professores e nem sabem escrever" ou ainda "se nem sabem escrever, como vão ensinar?". E tantas outras coisas que um professor, mesmo que não seja de português, pode corar com o que se passou. Um "houve" que deveria ter sido "ouve", num cartaz de uma manifestação à porta da Assembleia, foi suficiente para colocar, de rastos, o coordenador do SPM, que obviamente levou com tudo em cima como se, na realidade, não soubesse como se escreve. E sabe, como sabem todos os professores que integram a coordenação sindical, como de resto sabem todos os professores da Madeira e arredores. Sabem como se escreve a palavra, sabem como não se escreve, sabem o que significa ouvir e haver. Houve quem não ouvisse nada, quem não quisesse perceber, houve até quem se achasse num universo de infalíveis, para quem o erro é coisa que assiste aos outros, tal qual um Cavaco, de má memória, que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas. O mundo está cheio disso.

Estamos todos de acordo que aquele lapso não poderia ter acontecido, não houve, claro está, supervisão relativamente ao que estava escrito. Foi um erro. E como todos os erros, nunca deveria ter acontecido, não podia ter acontecido ali, com os professores não. Mas aconteceu, foi uma "empreitada" sem fiscalização e acreditar de olhos fechados sem saber o que estava escrito. Também não pode. Mas aconteceu. E depois? Nunca ninguém errou na vida? Eu já, várias vezes. Logo eu, que escrevo o melhor que sei e posso e mesmo assim, não chega, às vezes, nem isso chega para evitar o erro, muitos, normalmente até, de palavras tão simples que parece impossível ter acontecido. Um "gajo" leva uma roda de tonto, vira-se para si e estica a mão para escrever outro texto. Não há outra forma, também neste caso do coordenador do SPM. É aprender com os erros, escrever um novo cartaz, olhando bem, e empunhando de cara levantada e olhos para a frente na convicção daquilo que diz e na consciência de saber o que faz. Isto não é sobre debate de ideias, é mesmo de pessoas para pessoas, há pouca defesa.

Francisco Oliveira reagiu na página do SPM. Lamenta o facto e assume toda a responsabilidade. Não era de esperar outra coisa. "Julgo que a ninguém de boa-fé e intelectualmente sério passará pela cabeça que tenha sido eu o autor daquela frase ou que não saiba escrever corretamente aquela palavra. O que aconteceu foi que, na azáfama da concretização da iniciativa, aquele cartaz veio ter às minhas mãos, sem que me passasse pela cabeça a necessidade de fazer a sua revisão ortográfica. Com certeza que há um responsável, mas, como ele não cometeu nenhum crime, não o vou expor à barbárie das redes sociais, já que passariam a ter duas vítimas em vez de uma e a carnificina seria bem maior",

O professor deu uma lição não expondo o autor, assumiu. Fosse quem fosse, só poderia estar aqui a dizer, claramente, que Francisco Oliveira deu uma demonstração de liderança e de grandeza humana. "Para os canibais dessas redes, aqui estou eu, de peito aberto, para o sacrifício. Sim, em 24 horas já deu para ver que os que não gostam da ação do SPM estão a aproveitar-se da situação para me sanear e para pôr em causa a credibilidade do SPM. Por mim, estejam certos, continuarei em frente, olhando olhos nos olhos quem suportar o meu olhar. Não esperem ver-me comprometido a olhar, a tremer de medo e de vergonha, o chão. Na verdade, não preciso de me levantar, porque não caí. Tropeção pequeno, este".

E em jeito de reflexão, como diz, deixa "um singelo texto de José Luís Peixoto, inspirado numa das parábolas do Grande Mestre, que me tem ensinado muito e me leva a não dar visibilidade a tantos erros nas páginas virtuais de muitos dos que agora pretendem apoucar-me. Porém, podem estar certos de que não me meço pela escala da sua pequenez. Aqui vai, não se escandalizem:

"Eram estudantes do quarto ano que seguravam um escritor pelo braço. Traziam pedras nas mãos e raiva nos rostos. […] O escritor tinha a cabeça baixa. Ninguém podia ver e ninguém queria ver a mágoa acesa por detrás do seu rosto. De novo se ouviu a voz grossa desse estudante que disse: «senhor professor, este homem publicou na semana passada uma crónica com gralhas; o professor decano que se aposentou no ano passado, na sua lei, mandou-nos apedrejar tais homens; e o senhor professor, o que nos diz?». Sentado à secretária, ficou suspenso no silêncio. […] Todos o olhavam e todos esperavam a sua voz no momento em que disse: «quem de vós nunca tiver deixado passar uma gralha, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra.» E, inclinando-se novamente sobre a secretária, voltou a olhar para os seus papéis. Sem olhar, ouviu as pedras caírem abandonadas no chão de madeira e ouviu os passos dos estudantes do quarto ano a saírem envergonhados. […] Levantando-se e apoiando as mãos na secretária disse-lhe: «escritor, onde estão eles? Ninguém te condenou?» Ele respondeu: «ninguém, senhor professor». Ouvindo isto, disse-lhe: «nem eu te condeno; vai e, doravante, presta mais atenção ao prontuário ortográfico.

     

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