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  • Henrique Correia

Um Presidente à direita e um "desastre" à esquerda


Em primeiro lugar, o colapso da esquerda mais à esquerda, Bloco de Esquerda e PCP, mas também do Partido Socialista, que enquanto partido de poder, tinha forçosamente de apresentar um candidato próprio, mesmo com Marcelo de goleada à vista.



As eleiçoes presidenciais são únicas, têm caraterísticas próprias, são normalmente propícias a fenómenos que já ocorreram no passado e que voltaram a ocorrer neste contexto em que os portugueses sentiram uma acrescida dificuldade de gestão, simultânea, da pandemia e da política. Por si só, desde sempre, nunca mobilizaram muito o eleitorado, muito menos numa reeleição, onde também por norma quem está continua e isso, como se sabe, não é muito mobilizador. Aconteceu de novo, como aconteceu no passado, agora com Marcelo Rebelo de Sousa, que bateu claramente os seus opositores e na Madeira bateu mesmo o recorde: nunca um candidato, em processo de reeleição, teve uma percentagem tão alta, 72,15%. Não deixa dúvidas, não é isso que atormenta este domingo, que se não fosse de eleições, era de confinamento.

Mas além da reeleição de Marcelo, estas eleições voltaram a demonstrar algumas realidades que, em diferentes patamares, não podem deixar de merecer a correspondente reflexão de líderes partidários, de candidatos, no fundo, também, dos portugueses, sim os portugueses, os que foram votar, mas os outros que optaram por ficar em casa, como aliás manda a pandemia, que este domingo pediu exceção ao vírus para o povo poder votar.

Em primeiro lugar, o colapso da esquerda mais à esquerda, Bloco de Esquerda e PCP, mas também do Partido Socialista, que enquanto partido de poder, tinha forçosamente de apresentar um candidato próprio, mesmo com Marcelo de goleada à vista. O PS esteve mal e mesmo com muitos socialistas apoiando Marcelo, um candidato da área do PSD, não consegue sair desta eleição incólume, do ponto de vista político. Não fazendo o que devia, obrigou a diversos "golpes de rins", no continente e na Região, que inevitavelmente acabaram por não favorecer estratégias, nacionais e regionais, que eventualmente pudessem capitalizar em vez de retirar, como penso ter acontecido. Esta realidade não foi útil para o PS nacional, não foi boa para o PS regional, onde começa a ficar difícil manter a onda da eleição anterior face a tantos contratempos pelo caminho e uma pandemia que ajuda quem está a governar. O futuro é uma incógnita.

Paralelamente ao fenómeno de direita, onde André Ventura, assumidamente, como hoje disse, num "partido anti-sistema", caiu na democracia como uma "bomba" que poderia ter rebentado de forma ainda mais concludente como aquela que aconteceu. "Não haverá governo em Portugal sem a participação do Chega. PSD, ouve bem, não haverá governo em Portugal sem Chega", disse Ventura, com todos os contornos que isto possa significar para os próximos anos políticos em Portugal.

Mas paralelamente a este fenómeno, que a manter o discurso, tem os dias contados, mesmo com este resultado, surge, na realidade um outro facto deveras relevante, que não tem a ver com as presidenciais, mas com um processo que vem acontecendo há algumas eleições a esta parte, a descida da esquerda mais à esquerda, o Bloco e o PCP, com relevo para os comunistas, que caíram de forma muito forte, a merecer atenção e reflexão por parte dos seus dirigentes. Talvez o discurso, talvez a atitude, talvez seja forçoso mudar muita coisa sem mudar a matriz.

E por falar em mudar, quando é que este país resolve o método de votação acompanhando a evolução dos tempos, para possibilitar uma participação mais fácil, menos problemática, mais para este século? É preciso evolução, nos partidos e na democracia.

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