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  • Henrique Correia

A imunidade dos "putos"

Não podem ser iguais num mundo diferente. Não estão numa ilha a olhar para o resto do mundo. Estão no mundo


A adolescência é tramada. A juventude é irreverente, muitas vezes divertida, outras nem tanto, umas vezes idiota, outras altruista, mas é assim mesmo, todos nós passámos por isso, uns safaram-se, outros nem por isso, mas de qualquer modo todos temos saudades daqueles belos tempos em que não fazíamos contas à vida e tínhamos tantas contas para ajustar, todos os dias, de crises existenciais, daquelas que se não existissem a gente inventava de qualquer forma. Faz tudo parte quando a parte não é tomada pelo todo.

É como se naquela idade fossemos imunes a tudo, o mundo cai e continuamos a dizer que seguramos o mundo. Temos o mundo na mão sem ter que segurar nada do mundo. Naturalmente, com todas as certezas, tantas que qualquer dúvida até é uma vergonha.

Pois bem. Chegou a hora de falar a sério com esses "putos" imunes. Não podemos mudar a idade, não podemos mudar esse abraço à vida como se ela coubesse num abraço, não podemos dizer que cresçam quando dentro deles o crescimento é tão grande que, não raras vezes, nem cabem nele. Não podemos alterar a vivência própria da idade, à dispensa do casaco quando está frio, do guarda chuva quando está chuva e da contradição como "modus operandi" para mostrar ao mundo que há uma lógica para além da lógica.

Chegou a hora de apelar aos "putos" do mundo que não têm a imunidade que pensam. Não podem ser iguais num mundo diferente. Não estão numa ilha a olhar para o resto do mundo. Estão no mundo, estão dentro de um problema, fazem parte da solução. A responsabilidade pode ser irreverente, a identidade pode ser preservada, a diferença é mesmo a noção do espaço e do tempo, o sentido do coletivo, da família, da constatação que o umbigo da adolescência já não é aquele centro do mundo, muitas vezes inconsequente, dependendo dos excessos, mas sem grandes efeitos secundários. Agora, não, a irreflexão tem consequências, até podem ser indiretas, mas os riscos são grandes.

E é preciso dizer-lhes isso, também com a responsabilidade de quem tem a obrigação de ter mais responsabilidade.

Os apelos não têm servido de grande coisa. Enquanto escrevo, pelo menos três mesas de café têm, cada uma, uns oito adolescentes. Conto melhor, reparo que há uma com dez. Chegaram como sempre, aos beijos, aos abraços, sem distância e com a máscara algures, num qualquer canto. Estão no café, é verdade, mas estão assi. Em todo o lado. E vão para casa como se dali nunca tivessem saído.

Malta, se o mundo não está normal, a adolescência também não pode estar.

Nem a imunidade dos "putos" é a mesma...



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