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  • Foto do escritorHenrique Correia

A sociedade "veste Prada"...

Atualizado: 17 de jul. de 2023



Não é por um palavrão num concerto, é por tudo o que está subjacente a isso, o não haver limites e o acharmos bem que isso aconteça de ânimo leve e sem discussão.



Não estou nada surpreendido com os palavrões que um grupo qualquer andou a dizer no Parque de Santa Catarina no âmbito de um festival que, tal como outros pelo País, tem um nome Internacional, o Summer Opening, para soar melhor. Não estou surpreendido, há uns anos isso já aconteceu no mesmo evento, não sei se pelo mesmo grupo, nem me dou ao trabalho de saber qual foi esse grupo, pura e simplesmente por não estar interessado.

Não estou surpreendido com essa cantoria de palavrões, não estou surpreendido com os gritos dos jovens que em grupo vão e em grupo adoram tudo o que salta do chão e um qualquer personagem que mal se vê além dos "óculos do sol da meia noite" e manda tudo para o c...em três tempos enquanto sai um som qualquer para consumo imediato ao mesmo tempo que a cerveja vai escorrendo pelas gargantas da miudagem e de muitos pais "aflitos" à procura de serem primeiro amigos e depois pais. Mal sabem que os pais devem ser pais, por inteiro, e já é o cabo dos trabalhos, amigos é outra coisa. Os filhos têm amigos que chegue. Sejam pais amigos dos filhos, isso sim, mas educadores.

O palavrão só parece que dá estatuto às borbulhas, fica pelas mesas dos cafés, farto-me de ouvir um reportório "riquíssimo", já estou na fase do "mestrado". Mas os pais não precisam disso para serem "fixes". Toda a gente sabe o significado dos palavrões, mas não é por isso que vamos abandalhar a linguagem em festivais que servem para divertir, mas têm uma responsabilidade acrescida por receberem dinheiros públicos. Não é hipocrisia, é mesmo educação e respeito. E o respeito, mesmo em fase de extinção progressiva, não tem idade.

Também não estou surpreendido com as reações nas redes sociais. Nem das críticas nem daquelas que acham bem um festival de palavrões. A liberdade de expressão é isso mesmo, liberdade de expressão, até do anedótico. E não estou surpreendido porquê? Simples, parte da nossa vivência comunitária é passada numa sociedade que "veste Prada" e "despe" respeito, a chamada sociedade do ter em vez do ser. Têm mas não são. Não se estranha, por isso, o vigor do palavrão como símbolo de uma nova forma de estar da "nouvelle vague" da educação em Portugal.

Temos uma juventude com melhor formação académica? Temos. Temos uma juventude com melhores conhecimentos e preparada para o dito "milagre" para todo o desenvolvimento, a transição digital? Temos. Temos uma juventude atenta aos valores que podem não dar dinheiro mas dão dimensão humana? Temos, mas temos menos. Infelizmente, há uma falência de valores e um caudal de permissividade para a idiotice e para um deslumbramento sem sustentabilidade. O culto de vale (quase) tudo, que não podemos generalizar mas que começa a preocupar para o futuro, pode ser assustador.

Não é por um palavrão num concerto, é por tudo o que está subjacente a isso, o não haver limites e o acharmos bem que isso aconteça de ânimo leve e sem discussão.

Como é que resolvemos este défice alargado de valores? Lamento, não resolvemos, já não vamos a tempo. E já nem temos estofo para as revoluções que mudaram o mundo precisamente porque existiam lutas por valores.



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