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  • Henrique Correia

Albuquerque e Calado com "ar ajardinado"


Uma coisa é a ação partidária, onde cabe tudo, vale tudo, outra é a ação governativa, institucional. Sem que com isso haja qualquer limite de liberdade de expressão e crítica a pessoas e instituições.



Para muitos até pode ser surpreendente, mas na realidade não é. Miguel Albuquerque e Pedro Calado, no conteúdo estratégico, não são diferentes de Alberto João Jardim. Só na forma é que se distinguem, são menos conhecedores da cultura política, têm nenos carisma, mas são muito mais inteligentes no posicionamento das "peças" por forma a criarem uma corrente de cumplicidade cirúrgica visando objetivos que, no seu conjunto, servem a várias "clientelas" dentro de um enquadramento legal que Jardim, por exemplo, Jardim descurava e mandava seja como for. É para dizer, diz-se. É para fazer, faz-se e logo se vê.

É por isto tudo que as declarações de Albuquerque e de Calado sobre a anterior gestão da Câmara do Funchal, por serem desmedidas, desproporcionais e forçadas, na forma e no conteúdo, acabaram por surpreender muitos setores. O estilo "ajardinado", que parece não "encaixar" no perfil tanto do presidente do Governo como do presidente da Câmara do Funchal, neste "estágio formal" para a Quinta Vigia, assume contornos que acabam por desvalorizar estilos próprios, que alguns podem não gostar mas que pelo menos foram propagandeados pela diferença relativamente a estilos anteriores, tantas vezes criticados e que se relacionavam com um excesso de poder que se confundiu, durante anos, como sendo défice democrático. Este Governo faz tudo o que Jardim fazia, mais o que nem Jardim comseguiu fazer, mas mais democraticamente e com um Parlamento diferente. O Governo vai à Assembleia, mas o que é da oposição é chumbado e o que é do Governo passa. Nada de novo, sempre foi assim. Metade da carga acabava se Jardim fosse ao Parlamento, falasse e não dissesse que era uma perda de tempo ir à casa da Democracia. Depois, fazia o que queria na mesma. Como sempre, como agora.

Mas o que está aqui em causa mesmo são as declarações na cerimónia do "pau de fileira", a parte final da construção do Residence Insular, do grupo AFA, cujo empreendedorismo é inquestionável e cuja qualidade de projetos é intocável. De resto, como a ligação ao poder, o que não tem nada de mal, é apoiado, faz obra e cria postos de trabalho. Mas não precisa mais do que isso, nem Albuquerque e Calado deviam empurra-lo para uma zona político partidária de confronto com a anterior gestão do Município do Funchal, sabendo-se que a Coligação de Cafôfo e Miguel Gouveia aprovou vários projetos AFA, o que contraria o engonhanço avançado como contraponto com o "facilitanço" que Calado veio dar "num mês".

Claro que é preciso contextualizar a dialética política e a retórica utilizada nestes contextos entre partidos. E claro que tudo o que sejam dúvidas de gestão, seja de quem for, deve ser investigado até ao fim para apuramento dos factos e se for caso disso responsabilização dos eventuais prevaricadores. Agora, há lugares próprios para estes "apetites" partidários que correm o risco de caírem em tentações de arrastar o político e o económico para o mesmo terreno, uma mistura que mesmo acontecendo com frequência, deve transmitir alguma separação.

Sabemos que o princípio da separação de poderes foi à vida há muito tempo. Hoje, o poder económico entra na linha da frente à conta da crise e do medo que é incutido, nas populações, sobre o futuro, com reflexos num nivelamento por baixo como forma de vida do mercado de emprego. Com um aumento de influências de vária ordem entre grupos de interesse que se interligam num objetivo comum: servir e ser servido. Nada de novo, portanto.

Mas é pelo menos importante haver atitude institucional. De governos, de governantes. Seja de que cor política for. Na Região ou na República, também nas Câmaras. Uma coisa é a ação partidária, onde cabe tudo, vale tudo, outra é a ação governativa, institucional. Sem que com isso haja qualquer limite de liberdade de expressão e crítica a pessoas e instituições.

Liberdade joga bem com respeito...

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