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  • Henrique Correia

O Doutor fala claro


Em matéria de Saúde, em pandemia ainda mais, é preciso falar claro, falar a verdade, dizer o que é para dizer, informar sobre o que é preciso. E na maior parte das vezes, isso tem sido feito. Mas umas vezes, os técnicos falam e os políticos fazem diferente




Não é a primeira vez que acontece nesta fase pandémica e, por isso, não é por acaso a frontalidade que o delegado de Saúde do Funchal e coordenador da Unidade de Emergência em Saúde, Maurício Melim, tem manifestado, em várias posições públicas, sobre a situação real da Covid-19 na Madeira, do ponto de vista de um profissional de saúde, mais genuíno do que, por exemplo, tem sido o próprio secretário regional da Saúde, que também sendo médico, é político e está, assim, condicionado pelas opiniões que emite no âmbito da forma como ocorre a gestão governamental da crise. Gere com mais "panos quentes", a política obriga.

Mas o Dr. Maurício Melim tem conseguido, na realidade, ser incisivo na avaliação do que se passa, realmente, com os comportamentos das pessoas, muitas nem ligam minimamente ao facto de estarmos em pandemia, nas medidas que deveriam ser adotadas para reduzir as consequências dos focos de contágio, cadeias de transmissão, algumas com 20, 30 pessoas, além de avisar, de forma séria, que não estamos a descer com a celeridade que seria esperada, pelo que, a manter-se esta realidade, era preciso fazer mais qualquer coisa que tenha correspondência com uma descida mais acentuada, mesmo atendendo a que não estamos em confinamento total e logicamente os efeitos não serão os mesmos de um confinamento a cem por cento.

O Governo Regional até tem gerido bem a crise, na generalidade, tirando alguns milhões que, por serem repetidamente colocados nos jornais, na concepção, antes de publicar no Joram, depois de publicar no Joram, que às vezes parecem milhões diferentes e afinal são os mesmos. Ou esta situação relacionada com as notificações dos casos a Lisboa, que tinha sido atraso do laboratório do SESARAM, mas que durante muito tempo foi imputada a responsabilidade total à DGS, que não estando isenta de culpas por alimentar esta diferença, não pode arcar com toda culpa pelo sucedido. São situações que deviam ter sido evitadas com habilidade técnica em vez de habilidade política.

Mais uma vez, o Dr. Maurício Melim foi a "fonte" esclarecedora do que se passava com esta diferença de números. Objetivo, sem fugir ao que quer que seja, dizendo o que era para dizer, com naturalidade, porque não há infalíveis e os erros acontecem, o que é preciso é esclarecer logo. Só faltou esclarecer porque razão não houve tempo para notificar Lisboa na altura certa. Mas já foi bom ficarmos a entender o que se passava.

Em matéria de Saúde, em pandemia ainda mais, é preciso falar claro, falar a verdade, dizer o que é para dizer, informar sobre o que é preciso. E na maior parte das vezes, isso tem sido feito. Mas umas vezes, os técnicos falam e os políticos fazem diferente. Em certas situações, como por exemplo, o Dr. Maurício Melim defender medidas mais restritivas na Páscoa e apontando às cadeias de transmissão, e o presidente do Governo dizer que não é preciso fazer nada só se houver alterações. Até parece que Maurício Melim não representa a Autoridade de Saúde.

Percebe-se a intenção de manter a economia a funcionar dentro do possível, o que nem sempre é compatível com as medidas que os técnicos defendem. Mas é bom o Dr. Miguel Albuquerque não esquecer que, em estado de emergência, no País, as medidas diferentes na Madeira só avançam desde que suportadas por pareceres da Autoridade de Saúde e não por pareceres meramente políticos. E quem "arbitra" isso é o Representante da República, como se sabe, independentemente de se concordar ou não.



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