O País "perdeu" a Esquerda
- Henrique Correia

- 4 de out. de 2022
- 2 min de leitura
Portugal está sem esquerda desde que a esquerda fez uma avaliação errada do contexto e deu o "passo maior do que a perna".

É verdade que as ideologias pouco contam na política atual. E ainda mais nos partidos considerados do "arco do poder", que na sua ação governativa acabam por ter uma matriz que aparentemente os carateriza do ponto de vista global, mas na especialidade das políticas fazem inflexões todos os dias e mandam as ideologias às malvas porque gerir um governo, mas sobretudo gerir interesses, é outra história. Na oposição muda muito, mais depressa há um resguardo ideológico maior.
A este nível, Portugal vive, desde as eleições nacionais que deram maioria absoluta ao PS, um novo enquadramento político e ideológico que pode ser preocupante. O "apagão" da chamada esquerda, a esquerda do Bloco e do PCP, muito por culpa própria, é um mau prenúncio para o País. Portugal está sem esquerda desde que a esquerda fez uma avaliação errada do contexto e deu o "passo maior do que a perna". Resultado: esquerda penalizada, desvalorizada no Parlamento e "passadeira vermelha" à direita mais à direita, de tal modo que o debate parlamentar passou a ter outros protagonistas. Ventura passou a ser o maior problema para António Costa. E o PCP, que estava à beira do abismo político, ainda deu o passo em frente no posicionamento, meio dentro, meio fora, sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, esta invasão mesmo, esta guerra que está a devastar a Ucrânia, mas também toda a Europa. Há um histórico que não podemos ignorar, não há "anjos" quando falamos de potências mundiais, mas há invasão, há referendos sem as mínimas condições. E há uma consequência para a Europa.
Por isto e por tudo o que está para trás, a esquerda perdeu força, perdeu dimensão, acusou demasiado a derrota eleitoral e ainda não conseguiu inverter a tendência de protagonismo para os outros nos debates parlamentares. Tanto Catarina Martins como Jerónimo Sousa atravessam um período de crise de protagonismo, com maiores prejuízos para o Bloco que vinha assumindo a dianteira da oposição mais à esquerda do Governo. Será preciso muito trabalho para recuperar o lugar que o BE já teve, mas para isso será necessário ser mais incisivo para que os portugueses que deixaram de votar Bloco voltem a fazê-lo, pelo menos esses, sabendo-se que ganhar dimensão é difícil, perder é fácil.
Mas é pena porque o País precisa do papel da esquerda, precisa de uma oposição forte, tanto como precisa de um bom Governo.



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