É cada vez mais difícil marcar uma consulta
- Henrique Correia

- há 4 horas
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Situação no serviço Público é catastrófica do ponto de vista do princípio "primeiro o utente". É muito complicada no Privado, onde há esperas de cinco, seis ou mais meses.

Sem que possamos apontar uma data ou um momento específico em que se deu o início deste novo quadro de serviço de saúde, na Região, a verdade é que chegou a um ponto verdadeiramente preocupante em algumas especialidades. O Serviço Público é o que é, já sabemos, há como que uma resignação, sentimo-nos doentes mesmo sem estar, só de pensar que podemos estar sem que o serviço esteja para nós e responda aos mínimos, são anos de espera para uma consulta, para uma cirurgia, para um exame, mas o Privado começa a fazer o caminho no mesmo sentido das dificuldades, são meses de espera e em determinadas áreas só há consultas para 2027.
Como chegámos até aqui? Como compreender esta falta de médicos e a sobrelotação na disponibilidade de outros, mesmo tendo em conta a justificada maior procura pelos profissionais que, também, e muito particularmente neste sector, oferecem maior confiança, factor determinante nessa mesma procura.
Uma das explicações, dizem-nos, tem a ver com uma maior procura pelos cuidados de saúde, uma maior sensibilização da população para a prevenção, bem como o recurso a seguros de saúde, que a par da Convenção entre o Governo e os serviços privados, levam a que exista uma maior afluência, agravada pela população flutuante, que aumentou consideravelmente nos últimos anos.
Aceita-se esta como uma justificação plausível. Mas ainda assim, como defender o utente que recorre a um serviços de atendimento médico, espera meses por uma consulta, espera meses por análises e exames, e depois espera meses para que o médico avalie essas análises e exames, dependendo do tempo é necessário repetir análises, como testemunham situações que nos chegam ao conhecimento. Não acontece com todos, há médicos que salvaguardam essa realidade, mas acontece com muitos e com frequência.
Não sei quando isto começou, sei é que está assim. E leva a uma interrogação lógica: que trabalho está a ser feito para enfrentar este problema, cuja gravidade depende da patologia detectada e da terapêutica que nunca ninguém chega a saber se teria o mesmo efeito começando na altura que devia começar. E nunca sabemos porque a vulnerabilidade do utente está em confronto desvantajoso com o sistema, uma entidade abstrata que, por norma, tem sempre razão. Mesmo que não tenha.
Decidi, há poucos dias, abordar esta temática, numa perspetiva meramente de alerta, e nem de propósito vejo publicado, no Facebook, uma posição expressa pelo enfermeiro Élvio Jesus, antigo presidente da Ordem, na Região, onde lança uma questão pertinente: "Num país com um número tão elevado de médicos, porque existe uma percepção tão forte da sua falta?"
Élvio Jesus tem uma possível explicação: "Talvez porque uma parte significativa do seu tempo seja hoje dedicada à medicalização indevida de factores de risco, ao tratamento de “doenças” indolentes, à realização de intervenções sem benefício comprovado para o utente e, em alguns casos, até potencialmente prejudiciais".
No fundo, diz, "a questão poderá não ser apenas o número de médicos que temos, mas também o excessivo medicocentrismo e o quanto do seu tempo é verdadeiramente dedicado às funções que lhes competem".



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