A "mão" que "embala" o Poder
- Henrique Correia

- há 1 hora
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Cada vez mais, a esperança surge desvanecida por vozes gastas e pelo cansaço do voto. E por gerações viciadas no facilitismo do sistema.

Muitas vezes somos levados a avaliações e análises que, por norma, estão sempre condicionadas, salvo as devidas exceções, a componentes político partidárias, sendo que em Portugal, nos meios pequenos ainda mais, os partidos são vistos como um clube, com uma veia diferenciadora: os ganhos não se comparam para quem abraça a bandeira, em prejuízo óbvio dos clubes.
E nessa visão enviezada, mal de raiz, temos uma tendência encaminhada pela falta de pensamento, de escrutínio e de análise, realidades que facilitam opções de facilitismo, muito de forma, pouco de conteúdo. Olhamos a governação pelos partidos, conforme as opções de cada um, exercitando pouco a avaliação daquilo que realmente se passa e que está no cerne dos problemas: o Poder. O Poder é facilitador, é manipulador, é interesseiro, visa a influência, o lobby, tem como objeto eternizar-se através da criação de redes, que passam pelas benesses, pelos empregos, muitos entre famílias, pelos cargos, pelo filtro entre dos "nossos" e dos "outros", pelas estratégias que apontam para benefício de fornecedores, de empresários das obras, de afinidades que, normalmente, têm origem nos partidos. O Poder faz isso tudo, na Política, então, é um fartote e tem um histórico que nem seria necessário muita pesquisa para expor muitas situações do género.
O Poder, normalmente, empurra o exercício para o favor, para o telefonema. Como disse Pedro Calado, a Madeira tem especificidades muito próprias, as pessoas conhecem-se, contactam com frequência, pedem opiniões, abordam concursos, abordam tudo. E Poder de quem contacta, mais o Poder de quem é contactado, fazem uma mistura explosiva e raramente ilegal se for feito "à medida" da legalidade processual.
O facto do PSD estar no Poder há 50 anos faz do partido uma agência de Poder que leva consigo meia Madeira. E por força desse exercício, há uma teia de influência gigante, e ao contrário do futebol, dá-se ao luxo de ganhar sem marcar golos. Mas não se pense que é caso único e exclusivo, nada disso, os efeitos do Poder atingem quem exerce e não a cor de quem exerce. O caso de São Vicente, mas há outros, também em Câmaras da oposição, é paradigmático do que se passa quando se muda prometendo a diferença e quando se exerce fazendo essa diferença de igual. Não está em causa diretamente a nomeação da sobrinha do presidente, do Chega, para vice presidente, na sequência de uma atabalhoada governação local. O familiar não pode ser prejudicado se tiver valor para o exercício do cargo, mas é a história da mulher de César, não basta ser séria, tem de parecer.
Além disso, tem o que se defende como crítica ao modus operandi do Poder. Se criticamos o Poder PSD por alimentar clientelas e linhas familiares, nos cargos e nos empregos, ao longo de décadas, num expediente que a oposição contraria, ainda mais o Chega, não é fazendo igual que conquistamos a diferença. E é esse igual que, por vezes, leva o eleitorado a estar renitente com uma mudança forte, pensando que para ser igual que seja o Poder que está. Para melhor está bem, está bem, para pior já basta assim" ou "para pior já está assim".
Não é por acaso que, historicamente, a Madeira sempre sofreu mais de superavit de Poder do que o tão falado, no passado, défice democrático. O Poder domina, asfixia, cria raízes quase indestrutíveis, mas essa é uma prática de quem chega lá. É preciso muita resistência para evitar os compadrios e as cumplicidades, tantas vezes incompatíveis com as necessidades do povo. É por isso que, cada vez mais, a esperança surge desvanecida por vozes gastas e pelo cansaço do voto. E por gerações viciadas no facilitismo do sistema.



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