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  • Henrique Correia

Apoios, burocracias e o cartão de pobre



Infelizmente, a uma pobreza material, juntamos, do outro lado, uma pobreza de espírito dos burocratas, legisladores e outros. Que é muito mais grave e mais difícil de resolver.




As instituições, os apoios, os regulamentos que regulam esses mesmos apoios, a burocracia que um País burocrático impõe, a falta de formação técnica e de educação pessoal que dominam parte do funcionalismo público, sobretudo aquele que trata com todos os que precisam de ajuda, é suficiente para deixar gente à "fome". Não à fome propriamente dita, mas à "fome" de uma vida digna. A pobreza envergonhada, que hoje é a maior parte, em função da pandemia, não se "safa" com esta forma de ser e de estar dos organismos e das pessoas que neles pululam e que "cristalizaram" naquela primeira pergunta, em voz bem alta: "O que é que quer?"

Todos os dias, os governos apresentam apoios, as instituições aumentam ajudas, de forma preocupante, as ajudas mais elementares, pequenos cabazes são grandes apoios, decisivos, numa situação de sobrevivência. Aprendemos, também, a relativizar as coisas, as prioridades.

O problema é mesmo a burocracia. Para pessoas, para empresas. Tanta necessidade, tanto papel e pouca eficácia nas soluções. Em muitos casos deixam expirar os prazos sem esgotar as verbas disponíveis. É muita coisa para quem está em desespero e farto de perder dinheiro. Há informação, mas há burocracia a mais que "desinforma".

E mesmo conscientes da necessidade de levantamentos rigorosos para ajudas rigorosas, a verdade é que vários dos apoios são compostos por mecanismos burocráticos quase impossíveis de responder sem suporte, que muitos não dispõem. Porque não têm um cêntimo. Porque psicologicamente, "desapareceram" com uma realidade que a pandemia trouxe. E porque, para terem apoio, precisam mesmo de comprovar que não têm um cêntimo. E, ainda, porque a realidade dos apoios não tem em conta as necessidades de pessoas que, mesmo auferindo curtas verbas, são pobres na mesma, os novos pobres de uma nova vida. E os regulamentos "matam" pela burocracia que têm. A falta de sensibilidade também.

A última vem do Governo da República, que estará a estudar um cartão, recarregável, com uma verba que pode ser gasta na aquisição de bens, nos supermercados. Um cartão de pobre, um estigma, uma forma de catalogar as pessoas, uma vergonha que acresce à vergonha que se sente, sobretudo quando se tem uma vida controlada, pagando contas todos os meses, um equilíbrio que se desmoronou, num abrir e fechar de olhos. É a distância entre o viver e o sobreviver. Do cartão multibanco ao cartão de pobre. Um momento na vida de milhares que perderam rendimento, alguns perderam todo o rendimento. Teremos uma sociedade ainda mais dividida, agora por cartões?

E onde fica a dignidade? De pessoas para pessoas?

Infelizmente, a esta pobreza material, juntamos, do outro lado, uma pobreza de espírito dos burocratas, legisladores e outros. Que é muito mais grave e mais difícil de resolver. É mais fácil acabar com a pandemia.




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