Interrogação de Calado atingiu o modelo de Albuquerque

A interrogação de Pedro Calado (toda esta riqueza está a ir para onde...?")
não foi só uma interrogação. Foi um "golpe" no modelo.

A interrogação de Pedro Calado sobre o destino de toda esta riqueza que a Madeira tem, que segundo diz, e os madeirenses sentem, não chega à população em geral, causou o que seria natural causar atendendo ao histórico de 50 anos de Autonomia de modelo adotado pela hegemonia de um partido, o PSD-M: surpresa no povo, desconforto em Miguel Albuquerque, que "sacudiu" em forma de reação, e meteu o seu antigo vice e candidato à sua sucessão, no mesmo "saco" de oposição. E é que dava muito nas vistas publicamente, mas certamente passou pela cabeça do presidente, do Governo e do PSD-M, uma reflexão sobre a decisão de ter colocado Calado na Comissão Política. "Dá-se a mão e tomam o pé", diz o povo e deve ter pensado Albuquerque, naquela perspetiva vigente que os cargos calam críticas e as posições partidárias exigem muita lealdade e pouca opinião.
Mas tirando isso, sem ironias e outras entropias que só a Política explica, a verdade é que a declaração de Pedro Calado faz todo o sentido. A Região cresce há não sei quantos meses, talvez já 66, por aí, o desemprego é praticamente residual, o Turismo em alta, a Madeira tem indicadores de rica num "corpo" de pobre, mas como os números é que contam passa a ter menos apoios, mas ostenta um bom ar, a par de uma narrativa de "saúde" económica que o Governo assume como louros das medidas. E com tudo isto, os madeirenses, e não são poucos, trabalham, ganham, mas não conseguem casa e têm dificuldades para enfrentar as contas por pagar. Então, o objetivo da governação falha neste particular, por sinal importante, o que devia merecer uma atenção especial, de prevenção e não de reação, conforme vai ditando alguma "navegação à vista".
Mas é claro que Pedro Calado, que é arguido num processo judicial por suspeita de favorecimento, foi presidente da Câmara e vice presidente do Governo, além de antigo colaborador do grupo AFA, sabe há muito tempo para onde vai esta riqueza toda e este modelo de desenvolvimento. Pode não saber tudo, mas sabe muita coisa. Por isso, esta declaração pública ainda é mais surpreendente. E isso irrita ainda mais Miguel Albuquerque.
Então, sendo assim, como é que se compreende uma declaração daquelas, que o povo sente mas o Governo nunca admite, vinda de quem vem, agora na ótica de comentador, na TSF Madeira, do grupo do Diário, que como se sabe é propriedade de Avelino Farinha (que por sinal é dono dos dois jornais diários da Região) e de Luís Miguel Sousa, com o grupo Blandy a fazer de "decoração", com o muito "capital" do que já foi e o pouco "capital" do que hoje é.
Mas Pedro Calado, que até tem sobre si o "rótulo" de cumplicidade comprometedora entre Poder Político e Poder Económico, por via das suspeições plasmadas no processo judicial, em curso, sabe que a sua declaração é popular. Dá "votos". Não se põe agora, mas bem trabalhado capitaliza para um futuro. E o futuro não se trabalha de um dia para outro, nem se constrói com um comportamento cego sobre a visão de futuro.
É para isso que servem as estratégias, que entra o "marketing" político e a sagacidade de quem sabe andar nisto sem parecer que está andando. E de quem sabe que a memória popular vale o que vale e não costuma ser grande coisa, sobretudo na Madeira, um meio pequeno, com especificidades próprias e onde toda a gente se conhece e telefona uns aos outros, como sugeriu o próprio Calado, em tempos, para explicar eventuais contactos que o Ministério Público considerou suspeitos entre Política e mundo empresarial.
A reação de Miguel Albuquerque foi a esperada, tão forte como a declaração que a originou. Não é para menos, compreende-se. Está posto em causa o modelo de desenvolvimento da Madeira. Aquele modelo que dizem ser modelo até para fora. E posto em causa por uma das figuras que já foi das mais interventivas do PSD-M.
Além disso, a interrogação de Pedro Calado ("toda esta riqueza está a ir para onde...?") não foi só uma interrogação. Foi um "golpe" no modelo.



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