O "cartel" que parece...

Administrador da Porto Santo Line diz que há camarotes nos porta contentores. Antigamente, também havia passageiros com carga para o Porto Santo. No Devoto, no Maria Cristina e no Arriaga.

Carlos Perdigão Santos, administrador executivo da Porto Santo Line, empresa do grupo Sousa, com marca do empresário Luís Miguel Sousa, que entre outras "posses", entrou no capital do Diário, em parceria com outro empresário media, Avelino Farinha, que também entrou na gestão do JM, o que representa diversificar a sua corrente empresarial depois da construção e da Hotelaria.
Pois bem, o administrador da PSL foi a um debate sobre o "ferry" de ligação Madeira/Continente, promovido pelo JPP, fazer revelações deveras surpreendentes, como é que ninguém pensou nessas soluções mais cedo, como por exemplo o facto de "os navios porta-contentores do Grupo Sousa" disporem de "camarotes que podem ser utilizados por passageiros, permitindo-lhes viajar juntamente com a carga". Portanto, com alguma ironia, não é verdade que não exista ligação marítima de passageiros, se calhar é só alargar o espaço, caso seja possível e rentável. Ou até contratar um contentor de improviso, com umas camaratas, ou até tendas, para satisfazer este "capricho" do ferry que os madeirenses pedem no âmbito da continuidade territorial, mas que pode nem ser preciso invocar essa responsabilidade do Estado se formos por qualquer meio marítimo desde que não seja a nado.
A solução, como referiu o Diário, reportando essas declarações ao administrador do grupo, "pode ser utilizada actualmente por pessoas que tenham dificuldades em recorrer ao transporte aéreo, não sendo necessário esperar pela eventual criação de uma nova ligação ferry para disponibilizar uma alternativa marítima".
Lembrei-me logo que, afinal, para falar verdade, é recordação antiga, antiquissima, mas adaptada pode dar certo, havia ligação de passageiros para o Porto Santo a bordo do Devoto, do Maria Cristina ou de outros da época, como o Arriaga. Era em cima de sacas ou de outra mercadoria, era toda a noite, mas dava para entrar bem e mesmo saindo mal, era coisa para passar a água do Porto Santo todo o dia, dava para chegar ao destino antes de pensar na nova tormenta do regresso. Este senhor não se lembra, certamente, mas era assim. Quando qualquer coisa servia. Eram outros tempos, viajar era um luxo, mesmo em cima de sacas era preciso ter dinheiro para gastos.
As circunstâncias, hoje, são outras. E apesar da necessidade de fazer contas para que as Regiões não peçam os impossíveis e o incomportável, existem responsabilidades do Estado que justificam uma ambicionada cobertura de transporte, aéreo e marítimo, sem que se interprete como um luxo aquilo que deveria ser acautelado, seja por repartição de custos Estado/Região, seja por parcerias em matéria de operadores para que estes possam dar resposta às necessidades e, ainda assim, possam ter uma atividade lucrativa, o que se compreende pelo facto de estarmos perante empresas que têm os seus compromissos e não estão propriamente vocacionados para a "caridade". Mas o Estado, sim, é a estrutura que deve acautelar estas situações para que os portugueses sejam tratados de forma igual.
Não sei quanto custa um avião, podia ver mas não adianta. Como tal, não sei quanto custam dois ou três. Não sei o custo da operação aérea. O que sei é que a Madeira precisa e pronto. Não sei, também, o custo da operação marítima de passageiros para o continente, não sei e mesmo que quisesse saber, isso não era importante. Há tanto número que o debate anda à volta, sempre, do acessório em vez do essencial. É importante o custo, é verdade, mas o que é preciso é saber se uma ilha, com tanto mar, num país de marinheiros e descobridores, não deve ter uma ligação marítima de passageiros. Este é o debate, mesmo considerando que do ponto de vista político, na Madeira, não seja prioritário, como disse recentemente o presidente do Governo e está no seu direito. Sabemos o que pensa e isso já é bom, mesmo achando mal.
Carlos Perdigão Santos, segundo o mesmo Diário do grupo Sousa, "reiterou a disponibilidade da Porto Santo Line para participar num eventual concurso internacional. A decisão de avançar, contudo, ficará dependente das condições do concurso, do modelo de financiamento e da demonstração de sustentabilidade económica da operação".
O administrador não gosta que se fale em "cartel", ameaça mesmo quem assim se pronuncie. E formalmente, na verdade não há. Tem razão. Mas talvez não saiba, não tenha tempo de saber, é que existem atividades, na Madeira, que mesmo não sendo "cartel", são "cartel" sem ser...



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