Padre José Luís Rodrigues: A pobreza que se esconde...
- Henrique Correia

- há 3 horas
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"Vamos continuar a figurar nos piores índices de pobres, porque ainda não soubemos fazer os nossos próprios critérios contra a pobreza"

O padre José Luís Rodriguez tem um espaço a que deu o nome "escrever na água". Direto, por norma dos seus escritos, incómodo tantas vezes, para os poderes instituídos, o político e o religioso sobretudo, coloca o "dedo" em muita "ferida" que se esconde na "capa" dos dias, na rotina da vida e na indiferença de grande parte da comunidade. A par da pobreza, das taxas de risco e dos critérios que levam aos números, restam os pobres, os que precisam, a que se juntam os pobres de espírito, aqueles a que as estatísticas não chegam.
O religioso abordou a taxa de risco de pobreza, aquela que está quase em pobreza, a pobreza é outra coisa, é mesmo ser pobre, é ter nada naquela parte de material que move as estatísticas. O padre escreve, com uma ironia que "pica", porque ironia mesmo não é para aqui chamada de tão importante é este assunto, que
"na Madeira não há pobres mas há imensa pobreza. A pior de todas, a pobreza de espírito. A pobreza da bondade. A pobreza da justiça. A pobreza da verdade...Não temos pobres. Nenhum madeirense é pobre. Porque cada madeirense é um tesouro inigualável e inegociável. Nenhuma fortuna deste mundo paga o valor de cada madeirense".
Mas logo acrescenta no discorrer do seu texto: "Porém, a Madeira tem pobreza. Pobreza escondida por detrás da solidão e alguns bardos de abandono que os socalcos, agora votados ao abandono, escondem em muitas exíguas casas ou albergues que não merecem serem denominados de moradias ou casas.
A pobreza existe. Está escondida. Porque não é rentável como são campos de golfe e teleféricos, não serve para desfiles de carvanal, festas da flor e muito menos merece uma barraquinha na placal central como se fosse poncha multifrutas. Não dá prémios para melhor região de turismo do mundo. E muito menos serve para tirar retratos ou selfies para colocar nas redes sociais e semear pelo mundo pelas abastadas agências promocionais de turismo. A pobreza existe nesta terra onde cada madeirense é um tesouro".
E relata com experiência própria: "Hoje andei de porta em porta a visitar doentes e pessoas idosas: oitentões, noventões e até centenários, alguns acamados, que acusam ainda lucidez que expressa tristeza e outros que já não sabem nada deste mundo. Todos são gente, merecem condições dignas e cuidados aturados de afeto e carinho. Se em muitos encontramos o melhor poporcionado pelos deligentes familiares, noutros tristemente fala mais alto a "irmã" pobreza.
Quer queiram quer não, neste submundo reina a solidão, longas temporadas sem amparo são a mais frequente companhia, o silêncio o primeiro socorro, Deus e Nossa Senhora, o invisível que não lhes falham na oração e quando a necessidade reclama um pouco de água, arrastam-se para a irem buscar com enormes dificuldades".
O padre José Luís Rodrigues continua, agora para os critérios:
"Sim senhor, têm razão os que consideram errados os critérios para nos fazer pobres quase à força. Também digo com a maior certeza, nenhum madeirense é pobre, porque cada um tem um valor impagável, mas, também garanto que temos pobreza, enorme pobreza que tem feito da nossa terra um exemplo merecedor de prémio de desigualdade e de injustiça que brada ao mundo e aos céus.
Vamos continuar a figurar nos piores índices de pobres, porque ainda não soubemos fazer os nossos próprios critérios contra a pobreza e muito menos ainda aprendemos que o progresso autêntico de uma região faz-se com prioridades na base de uma responsável e honesta distribuição da riqueza produzida. Nunca será com loucuras desnecessárias que beneficiam sempre os mesmos empobrecendo a maioria".



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