A Autonomia que apre(e)ndemos...

Na Madeira, a oposição tem de ser mesmo muito boa para desgastar um Governo com 50 anos, para chegar ao Governo é para roçar a excelência, mesmo que esse Governo, sempre do PSD, tenha sido, algumas vezes, assim, assim.

Num ano em que assinalamos meio século de Autonomia Política da Madeira, é natural que haja uma necessidade, acrescida, de fazer uma reflexão sobre o facto de haver um único partido, o PSD, a governar a Região há 50 anos, nos últimos com o apoio do CDS, em função de uma transferência de votos que acabou por reduzir as largas maiorias do partido do Governo, ainda assim insuficiente para lhe retirar o Poder.
A Madeira é um caso de estudo, dizem alguns. É a decisão livre e democrática do povo, argumentam outros. A oposição tem trabalho difícil por haver uma espécie de "asfixia" democrática, sem visibilidade, assente na máquina governativa e com ramificações públicas e associativas, desportivas também, talvez no resto, até no que poderia restar e que, porventura, estaria imune a este "polvo" de influência generalizada. Não está, nada está imune, e não é necessariamente aliado a qualquer ilegalidade. É mais a influência com raízes profundas, foram muitos anos de "plantação", gerações a tratar de gerações, passadas, presentes e futuras. A realidade é o que é.
Mas os Governos da Autonomia governaram tão mal que se peça a sua demissão e alternância? A Madeira não sofreu transformações profundas fruto dos benefícios da Autonomia e de trabalho? Não, não governaram tão mal. E sim, a Madeira sofreu alterações profundas. O PSD tinha e tem o Poder, tinha e tem os meios, e naturalmente fez obra, cometeu erros também, muitos, mas teve tempo de sobra para se levantar sempre que caiu. Teve tempo de sobra para criar o que quis criar para o que quis fazer. E é aqui que entra outra parte do processo, as oposições, que nunca se organizaram convenientemente por dentro para poderem fazer um combate consequente por fora.
Em Democracia, é tão importante um bom Governo como uma boa oposição. E a História da Autonomia faz-se, também, das boas e das más oposições, dependendo do conceito que cada um tem da atititude das oposições relativamente a um Poder com 50 anos. Do conceito e das condições reais.
Não havendo alternância política, as oposições enfrentam dificuldades acentuadas para se imporem num contexto, que é democrático, mas que tem especificidades próprias da Região. A oposição deixou fugir o Poder e deu-lhe vantagem na luta política, foram muitos anos de lideranças conformistas e, de certo modo, adaptadas a uma luta partidária como se esta fosse feita com cada um na sua zona de conforto. A oposição não pode ser feita em zona de conforto. O conforto conforta, não confronta, a oposição não se faz em "banho maria", faz-se de incómodo, de surpresa, de investigação, de trabalho de casa, não de banalidades, de rotinas, de um guião que no dia 1 fala de portos e no dia 2 de aeroportos, mesmo que o assunto pertinente e incómodo seja outro.
O Partido Socialista sempre liderou a oposição. Era a hegemonia do PSD no Governo e do PS na oposição. Ambos confortáveis, assim foi muito tempo, ao ponto de chegar tarde e morrer na praia quando houve uma porta aberta, muito por demérito do PSD, mas também com mérito do PS. Mas foi o "canto do cisne". Depois disso, foi a queda que se viu.
Durante anos, este cenário foi muito conveniente a todos. Por muito incompreensível que possa parecer, foi assim. E foi essa conveniência e esse "banho maria" que acabaram por trazer protagonismo ao JPP, através de uma oposição de combate político, de permanente atenção aos assuntos mais "quentes" da governação. Passível de discussão relativamente a métodos? A quadros? Talvez. Mas com votos suficientes para passar a principal partido da oposição e preenchendo um espaço deixado vazio por quem permitiu que isso acontecesse. Além do CHEGA, por outras razões, mas todas com origem na falta de resposta com uma mensagem que não passou.
E se o PS quiser recuperar espaço, recuperar o seu lugar de líder da oposição, ou coloca o seu patamar no combate político "quente" ou então no "morno" da agenda e do discurso não vai lá. Há uma liderança nova, que temos como capaz e com trabalho feito no contexto partidário e ao nível do Poder Local, mas quem está em desvantagem tem de arriscar mais com uma metodologia que vá além do politicamente correto e da narrativa, sem repetir mensagens em 24 horas com protagonistas diferentes. Só assim, o PS pode continuar a desempenhar o seu estatuto de partido importante no processo democrático e no processo autonómico. Importante pelo passado, mas importante pelo que faz no presente capitalizando para o futuro.
A História da Autonomia faz-se com todos. E a política precisa de bons governos e de boas oposições. Na Madeira, a oposição tem de ser mesmo muito boa para desgastar um Governo, para chegar ao Governo é para roçar a excelência, mesmo que esse Governo, sempre do PSD, tenha sido, algumas vezes, assim, assim.
Os 50 anos também devem servir de reflexão sobre o que aprendemos e se apreendemos alguma coisa...



Comentários