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  • Henrique Correia

"A responsabilidade foi do Gouveia, ou seja, minha"


Miguel Gouveia: "Esta quarentena remeteu-me a um súbito distanciamento social de alguns com quem partilhei caminho e que ainda hoje me anatematizam sob um cordão sanitário partidário".



"Sou o único culpado, mas mantenho íntegra a minha lealdade".


A Política é assim mesmo. De resto, mais do que a política, acima de tudo é o poder que é assim mesmo. Por cima, pode-se enquanto se pode; por baixo, esquece-se enquanto se esquece. Uma experiência inesquecível, onde o sofrimento depende da forma como se exerce o poder ou da capacidade de sofrimento. Já aconteceu com muitos, em diferentes formatos, mas em todos esses formatos o poder é a questão nuclear.

Miguel Silva Gouveia escreveu um texto, no Facebook, onde faz uma análise curiosa de 40 dias fora da ribalta de poder na Câmara do Funchal, agora na posse da coligação PSD/CDS. Miguel Gouveia toca em vários pontos muito interessantes, que ajudam a perceber aquilo a que podemos falar do lado reles da política, o lado dos anões em bicos de pés, dos peões que circulam pelo lado para onde são jogados, do poder pela cumplicidade e não pela qualidade, da importância e da influência que são diretamente proporcionais à falta de caráter.

O ex-presidente da Câmara falou de 40 dias. Assim: "Esta quarentena remeteu-me a um súbito distanciamento social de alguns com quem partilhei caminho e que ainda hoje me anatematizam sob um cordão sanitário partidário, quiçá para evitar mergulhar no difícil recesso da auto-análise e autocrítica, preferiram canalizar na minha pessoa e acções, a raiz de todos os insucessos".

Citou Nelson Mandela para expressar o que lhe vai na alma: "Como Nelson Mandela certa vez disse: "Eu nunca perco. Ou eu ganho, ou aprendo."Eu, nestes últimos 40 dias tenho aprendido imenso".

É desta aprendizagem que fala e passaram só 40 dias. Depois de uma certa mágoa, na noite eleitoral, relativamente a algum eleitorado, 40 dias depois põe o "dedo na ferida": "Uma análise descomplexada do processo autárquico, introspecção individual e avaliação prospectiva conduziram-me a uma sentença pessoal e de responsabilidade intransmissível: a responsabilidade foi do Gouveia, ou seja, minha".

Segue-se um rol de culpas, que assume por inteiro, mesmo que outros, com culpas no cartório, tentam passar entre os pingos da chuva e conseguem passar incólumes na maior das tempestades. Olham ao espelho e estão sempre secos mesmo que encharcados da cabeça aos pés. São aquilo que querem ver e não o que são.

Segue-se o conjunto de culpas de Miguel Gouveia, como se fosse um ato de contrição de quem olha à volta e não vê a multidão que lhe prometia lealdade eterna até há 40 dias:


- Fui culpado de fazer uma campanha dentro das regras legais. Fui culpado de não aceitar dinheiro de nenhuma entidade com interesses económicos na cidade. Fui culpado de não atacar adversários mantendo a elevação e urbanidade. Fui culpado de propor um programa serio e responsável, balizado nas competências municipais. Fui culpado de tentar romper com vícios e maus hábitos processuais. Fui culpado de construir uma equipa de independentes, de fora do habitual espectro político, com carreiras profissionais próprias e com créditos firmados nas suas áreas. Fui culpado de tentar quebrar com a governação para a próxima eleição, planificando uma cidade a longo prazo e manter-me fiel ao seu cumprimento. Fui culpado de dar oportunidades iguais a todos os fornecedores. Fui culpado de não hesitar em dizer "não é possível" quando não era possível. Fui culpado de não fugir às decisões difíceis. Fui culpado de querer ganhar eleições sem perder o Funchal. Fui culpado de não ter oferecido uma vitória eleitoral a tantas carreiras que dela dependiam. Fui culpado de não virar as costas a todos aqueles que confiaram em nós. Sou o único culpado, mas mantenho íntegra a minha lealdade, reconhecimento e gratidão a esta cidade do Funchal que continuo a amar.



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