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  • Henrique Correia

A sociedade do "umbigo" abandona gente pelo caminho


Mas se não podemos resolver, pelo menos sejamos capazes de refletir. Refletir nos jovens e em todos aqueles que, num momento das suas vidas, vêem nesta sociedade uma encruzilhada e não um caminho.




Não é um fenómeno novo mas sempre que ocorre qualquer situação resultante de uma sociedade cada vez mais virada para dentro, como se diz muito para o "umbigo" de cada um, vem a necessidade de refletirmos sobre o que ainda podemos fazer ou o que já não podemos fazer pelas pessoas e para as pessoas que não seja a meta retórica política eleitoral, necessariamente superficial e conjuntural sem qualquer peso estrutural que possa alterar o rumo dos acontecimento que levam aos extremos, o abandono de pessoas, físico e psicológico. Esta sociedade não quer saber das fragilidades e condena gente ao abandono, expresso em diferentes formas, depois à morte como recurso final de um turbilhão de sentidos que na rotina dos dias nos passam ao lado, nas ruas, nos blocos dos apartamentos onde quase ninguém se conhece, nos hospitais, nas unidades de cuidados continuados, na generalidade de uma vida que só está preparada para lidar com o sucesso.

É importante criar estruturas que possam dar resposta a todos os problemas das sociedades, para resolver os desequilíbrios emocionais em diferentes vertentes sem que a sociedade seja, ela própria, factor discriminatório e condenatório desses mesmos problemas, que levam ao abandono, também em várias formas, e, num momento/precipício, ao fim prematuro da vida. As estruturas são importantes, mas sem uma sociedade equilibrada, cuja estabilidade emocional a pandemia agravou, todas as crises agravam, jamais conseguiremos ser uma sociedade equilibrada e solidária capaz de responder aos abandonos de idosos nos hospitais e ao abandono de pessoas no seu dia a dia de sofrimento sentindo que o valor da vida vale pouco ou nada. Uma sociedade para quem os valores da vida são inferiorizados pela vida de valores, é uma sociedade condenada e incapaz dessa defesa comum do importante.

Mas se não podemos e, para muitos, não queremos resolver, pelo menos sejamos capazes de refletir. Sobre o idoso abandonado na cama de hospital, os idosos que estão sozinhos em casa no silêncio "ensurdecedor" da sociedade lá fora, mesmo na casa ao lado. Refletir nos jovens em crise de percurso, e em todos aqueles que, num momento das suas vidas, vêem nesta sociedade uma encruzilhada e não um caminho.


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