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  • Henrique Correia

As vacinas na pastelaria e a falta de vergonha na cara



Defendo que a prioridade do plano de vacinação deveria abranger, primeiro que tudo, todos os profissionais de saúde. Todos, público e privado, tudo o que mexe com saúde



É verdade que os governos têm responsabilidades, sempre, em tudo o que acontece na governação e independentemente de qualquer assunto. Em pandemia, num contexto muito sensível, estando em jogo a Saúde, a vida, ainda mais se exige um rigor, um comportamento a roçar a infalibilidade, com medidas claras, assentes em critérios objetivos e deixando margens mínimas de "fuga" para quem está sempre a pensar como vai fazer para tornar a questão.

Tudo isso é verdade, os governos merecem "porrada para baixo" quando há falhas, mais ou menos grosseiras. Mas também é preciso dizer que há muita gente sem vergonha na cara, assim com todas as letras, uma "lata" daquelas que às vezes até fica difícil acreditar. Vacinar o dono e os empregados de uma pastelaria, no Porto, por parte do INEM, por existirem vacinas a mais cujo destino seria o lixo, caso não fossem rapidamente administradas, é talvez o episódio mais ridículo e incompreensível da operação de vacinação contra a Covid-19.

O diretor do INEM, com a leveza das palavras para o peso da situação, numa capa de ingenuidade, o que ainda é mais grave, diz que o processo foi transparente. Existiam vacinas a mais, foram para o pátio junto às instalações do INEM e deram com a pastelaria onde a maior parte vai tomar café. Foi ali mesmo.

E o bastonário da Ordem, naquela atitude primária do corporativismo, ainda diz, apesar de ser verdade e criticável, que o Governo não tem regras para as sobras e por isso havia que tomar uma decisão, provavelmente o responsável não tomou a decisão certa. Assim, muito leve. Como se tudo fosse explicado com regras, com leis. Mesmo que fosse movido um processo ao médico, como não está definido, não seria sancionado, logo fez bem. Como se não contasse a ética, a responsabilidade e o bom senso. São precisas regras para o senhor doutor do INEM fazer um telefonema para um dos centros de saúde próximos e perguntar se algum profissional de saúde, se algum funcionário estaria disponível para ser vacinado? Ou um telefonema para partilhar informação com seus superiores? Não atirem areia para os olhos. E aceitaram a demissão por algum motivo, não deve ter sido porque a situação é normal.

Mas não tem sido caso único. Infelizmente. E aqui já é preciso o Governo começar a intervir rapidamente. Não pode deixar abertura nas regras, não pode deixar a decisão nas pessoas, porque sendo assim vai fomentar a habitual cunha à portuguesa. São os presidentes das Misericórdias, alguns acumulam com presidências de Câmaras, que a reboque da vacinação dos utentes e funcionários, aprovitam a "boleia", mesmo que o plano não inclua os corpos sociais na lista de prioritários.

E aquela senhora, directora do Centro Distrital de Setúbal do Instituto da Segurança Social (ISS), Natividade Coelho, que terá sido um dos 126 funcionários da Segurança Social a vacinar-se antes do tempo. Isto é de bradar aos céus.

E é assim que querem colocar em prática um plano que mereça a confiança dos portugueses.

Por isso é que defendo que a prioridade do plano de vacinação deveria abranger, primeiro que tudo, todos os profissionais de saúde. Todos, público e privado, tudo o que mexe com saúde, também bombeiros e forças de segurança, num processo rápido que fosse logo a seguir para os lares e pessoas com idade avançada, numa avaliação que tivesse em conta as comorbilidades.

Mas isto sou eu a pensar, que não percebo nada de Saúde. Mas penso que estou certo que um plano pode bater no fundo da credibilidade quando o dono e o funcionário de uma pastelaria são vacinados antes de muito médico e enfermeiro. É preciso dar um murro na mesa. Mas dar mesmo.

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