Buscar
  • Henrique Correia

Candidatura de Ana Gomes deixa PS num dilema para as presidenciais: esquerda ou direita?

Marcelo vai vencer, só não sabe por quantos. E quem não gosta de Marcelo vai protestar votando no candidato do protesto: André Ventura



Não há candidato suficientemente forte para enfrentar Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais de janeiro de 2021. Marcelo ainda não formalizou a candidatura, mas fá-lo-á mais cedo ou mais tarde, não tem pressa de se candidatar e também não tem pressa de vencer, sabe que vai acontecer nos tempos legais, só não sabe por quantos. Mesmo com todos aqueles lugares comuns, do género não há vencedores antecipados, o que conta é o resultado depois das eleições, à partida todos vão com as mesmas possibilidades de vitória. Do ponto de vista democrático, é verdade, do ponto de vista do politicamente correto, é verdade. Mas não é assim, até pode haver uma hecatombe política, mas em condições normais Marcelo vence por larga maioria. Pode não ser a maior a maioria de outras eleições, mas será certamente confortável.

O problema é mesmo o resto, os outros candidatos jogam para o segundo lugar. E ao contrário do que possa parecer, a candidatura de Ana Gomes, que não é uma figura nada consensual dentro do partido, antes pelo contrário, veio acabar de vez com os socialistas nesta matéria de eleição presidencial, traz ao de cima as divergências internas, que eram latentes mas ainda não colocadas do ponto de vista de uma eleição. O PS vai apoiar Ana Gomes mesmo que não tenha sido indicada oficialmente como candidata do partido e assuma a candidatura por iniciativa própria, sabendo-se as divergências que provoca ? Vai apoiar um candidato oficial do PS? Ou vai apoiar Marcelo, um candidato de outra área ideológica, mas que já tem recebido elogios e a quase garantia de apoio por parte do secretário-geral e primeiro-ministro António Costa? Ou vai, ainda, dar liberdade de voto aos militantes correndo o risco de deixar no ar o compromisso oficial do partido, de identidade socialista, revelando com isso a incapacidade, sendo partido de governo, de apresentar um candidato forte para vencer? Uma decisão difícil, sem dúvida.

A entrada de Ana Gomes parece resultar de uma indefinição do PS, surge como um "recado" à atual direção socialista e dá seguimento a declarações já anteriormente feitas e que iam no sentido de considerar lamentável o apoio, quase explícito, de Costa a Marcelo, durante uma iniciativa na Autoeuropa. "Acho que muitos portugueses de centro esquerda, da esquerda e da própria direita democrática estão preocupados", disse Ana Gomes.

Falar de André Ventura, que renovou recentemente a liderança do Chega, é falar de um fenómeno. É quase certo, esse fenómeno, ser concretizado em votos.Quase tão certo como a vitória de Marcelo. O povo vai protestar, como sempre fez, André Ventura aproveita o descontentamento e pode até reunir um resultado que não terá nada a ver com a sua real dimensão. Não tendo dimensão, em função da utilização do exagero na defesa de alguns pontos de vista que até poderiam ser avaliados, pode no entanto conseguir uma boa votação. Quem não gosta de Marcelo, protesta. Quer seja de esquerda ou de direita. E o protesto não me parece que seja em Ana Gomes, será certamente em Ventura. Marisa Matias e a candidata que o PCP ainda vai apresentar, têm eleitorado fixo.

Nem falei de Miguel Albuquerque. Apesar daquela "incursão verbal" sobre as presidenciais, ainda o tenho por uma pessoa consciente. No seu perfeito juízo, diga-se...

15 visualizações