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  • Henrique Correia

E depois dos apoios?


Como podemos achar que essas empresas podem receber apoios para uma reorganização e posterior retoma de funcionamento no futuro se não conseguem reorganizar-se para isso no presente? 


Esta crise pandémica, a que se associa, por consequência, uma crise económica, profunda, de dimensão ainda desconhecida, vem colocar o debate sobre o futuro num patamar preocupante,  pela incerteza que o desconhecido trará à vida das pessoas. Estamos com uma economia muito mais frágil, estamos com medo, até de viver nos mínimos, estamos mais pobres em (quase) todos os pontos de vista. O rasto de " destruição" vê-se, sente-se sem saber porventura o quanto se sente e por quanto tempo. E mais grave: não estamos melhores pessoas. E esta será, eventualmente, uma situação irreparável. Veremos.

Os governos, tanto Regional como o Nacional, desdobram-se nos apoios, e bem, apoios nunca antes vistos no seu montante, também porque nunca antes houve uma crise desta natureza, pelo menos nos tempos da nossa democracia de meia idade. Sem dúvida que quem governa tem exercido una ação notável para minimizar os efeitos, catastróficos, daquilo que muitos falam como sendo o novo normal, que de tanta anormalidade, agrava os receios da própria doença, já de si suficientes para mandar a população para um confinamento prolongado, que não aquele confinamento por decreto. É o outro confinamento, voluntário, pelo medo e pelas necessidades que passam muitas famílias que há pouco tempo, estamos a falar de meses, em março, pagavam as suas contas e tinham uma gestão financeira equilibrada. Hoje, engrossam as fileiras dis que precisam de ajuda. Perderam empregos, perderam rendimento, vão perdendo dignidade no meio da vergonha de pedir.

Os governos têm apresentado medidas de apoio, às pessoas e às empresas, as moratórias já se prolongam por 2021, as bancárias e outras, por forma a viabilizar o equilíbrio das famílias. São milhares de euros, milhões mesmo, que a Europa vai mandar para os países, numa solidariedade que se regista, os governos dos respetivos países, esperemos, devem canalizar verbas para o território, todo, mas com una preocupação acrescida pela ultraperiferia, como é o caso da Madeira e dos Açores. Não é o momento de fazer política, de brincar aos partidos, de ser preciso recorrer à influências para tratar de pessoas, as mesmas pessoas que no próximo e nos seguintes serão chamadas a eleições.

Os milhões aparecem, ainda bem que aparecem para acudir a este "sufoco". São publicitados, todos os dias, nas páginas dos dois jornais (base da comunicação governativa de hoje), como se fossem bandeiras político partidárias. São milhões de uma linha de apoio, são isenções de taxas até dezembro, são linhas de crédito, são deliberações com atribuição de fundos a associações de solidariedade social, mas também desportivas, recreativas, culturais, entre outros valores assentes, sempre, na compensação dos efeitos da Covid-19.

Sem dúvida que tanto o Governo Regional como as Câmaras Municipais, cada uma dentro das suas capacidades, financeiras e de execução, têm vindo a colocar o foco no apoio às pessoas e às empresas, procurando resolver, para já, o impacto da paragem da atividade e numa retoma muito lenta em diversos setores, como o turismo, que no caso da Região, é o sustentáculo para muitos serviços, envolvendo milhares de pessoas.

E agora, chegamos a um ponto em que é preciso refletir e debater o futuro. A quebra foi de tal ordem que os apoios parecem sempre pouco. Com tantos milhões em circulação- o custo vê-se depois - porque razão existem tantas empresas a dispensar funcionários? Se as empresas não estão a garantir os postos de trabalho, mesmo beneficiando de apoios consideráveis, como podemos esperar que o futuro seja sustentado quando terminarem esses apoios? As empresas, muitas, não estão a faturar nem para garantir a parte que lhes cabe. Como podemos achar que essas empresas podem receber apoios para uma reorganização e posterior retoma de funcionamento no futuro se não conseguem reorganizar-se para isso no presente? 

A Madeira, maioritariamente de micro empresas vivendo no limite da receita/despesa, vai enfrentar grandes dificuldades quando chegar o dia em que esses subsídios acabarem. E é nisso que devemos ter o foco, mais a médio/longo prazo. Até que ponto estes apoios atuais, importantes sem dúvida, significam garantia de preparação do futuro? Até que ponto estes milhões todos, verdadeiramente decisivos para que muitos ainda tenham as portas abertas, não serão meros analgésicos que apenas adiam o inevitável e remetem uma outra solução para 2021.

Mas 2021 não era o ano da recuperação?

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