Há quem não queira trabalhar e quem não queira trabalhadores

Avisem os trabalhadores no desemprego, os que recusam trabalho, fazem bem avisar e agir. Mas avisem também os empresários, os que não procuram trabalhadores.

Não é uma questão nova nem o debate, por si só, é pacífico, está longe disso. Nem os tempos, nem os argumentos, vão alterar aquilo que cada um pensa sobre o emprego, dos pontos de vista do empregado e do empregador. Sempre foram pontos de vista diferentes, acontece que agora está pior, mais desequilibrado e com um enquadramento que a disparidade da oferta e da procura se encarrega de nivelar por baixo até a opinião das pessoas sobre o assunto. E as crises não ajudam nada a clarificar o mercado de trabalho, sobretudo porque à falta deste, trabalho, corresponde uma oferta e uma procura a qualquer preço, que leva a discussão para patamares extremos, fundamentalistas mesmo, relativamente à disponibilidade de trabalho e a disponibilidade do trabalhador.
Política à parte, porque a opinião dos políticos não consegue ser isenta, em função dos interesses, até porque muitos deles ainda por cima são empresários, não podemos situar este debate numa única vertente, que normalmente assenta na recusa de trabalho de quem está no desemprego a auferir o respetivo subsídio. E depois, os episódios que estrategicamente transmitem as exceções como regra de comportamentos, como aquele caso de um desempregado que recusou um emprego porque o horário de trabalho abrangia a hora de fazer desporto. E é claríssimo o absurdo deste episódio, visto com os dados que temos. Nem devia ser possível isto acontecer, se devidamente comprovado e se enquadrado numa lógica de correspondência com cada candidato e percurso profissional anterior, sem ter como consequência a perda imediata do subsídio. Aqui estamos conversados. E não vale a pena generalizar para dar provimento a uma realidade e branquear o que muito empresário anda a fazer à conta da falta de trabalho. Perante o silêncio, cada vez mais ensurdecedor, das estruturas sindicais, também elas com menor força e com lideranças fracas e coniventes. Os grandes sindicalistas devem estar envergonhados com o estado a que isto chegou.
Para mim, conta pouco ou conta nada que 300 desempregados tenham recusado emprego. Seria preciso analisar os processos e avaliar circunstâncias. Iríamos encontrar certamente casos de recusa inexplicável, é verdade, mas outros estariam enquadrados em situações de recusa com cobertura "legal".
É muito fácil a atitude demagógica de dizer que ninguém quer trabalhar. Não tem trabalho e recusa trabalho. Quem não fica indignado com esta realidade? Preferem ganhar o subsídio, recusam trabalho. Para muitos, é verdade, mas generalizar é perigoso e serve para conferir "legalidade" aos abusos.
Agora vamos ao outro lado, o dos empresários. Sem eles, não há emprego, a economia não funciona, é preciso apoiá-los. Não poderia estar mais de acordo. Há bons e maus, como há trabalhadores bons e maus. Mas apoiá-los não é ser cúmplice do "vale tudo", em muitos casos representando atropelos aos direitos elementares, como dois horários num dia, 14 horas de trabalho, folgas quando der sem respeito pelo descanso regulamentado, além de outras realidades que bem podíamos enumerar e sobre as quais pouco se debate à conta da defesa dos empresários, apenas porque são, mesmo aqueles que declaram insolvência, mandam empregados para a rua e abrem outras empresas para poderem operar no mercado com este expediente. E neste meio pequeno, sabe-se tudo. Só que o conhecimento é tão grande como o medo.
Por isso é que defendo que os políticos devem ser diretos e sérios nestas questões. Para serem credíveis. Avisem os trabalhadores no desemprego, os que recusam, fazem bem avisar e agir. Mas avisem também os empresários, os que não procuram trabalhadores. E não vão com o discurso da falta de trabalho para certas empresas que têm trabalhadores a fazerem 14 horas por dia como quase regra.



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