Indiferença de morte

Quando paramos para refletir nas sociedades, damos com elas, muitas, em pedido de socorro. E uma sociedade que pede socorro, não faz escolhas para a comunidade. Um resto de bom dia de reflexão...

Caiu e morreu aos pés do povo que passava na rua, indiferente à vida e à morte.
Nem todos os dias são dias de reflexão, na maior parte dos dias não temos tempo, dizemos que não temos tempo, na verdade temos o tempo suficiente para termos esse tempo. Mas não temos e ponto. A reflexão de hoje é outra coisa, inútil, mas consagrada como reflexão das eleições de amanhã. E se já não refletimos para coisas importantes, então para as eleições muito menos, é no fundo mais um dia hopocritamente de reflexão eleitoral que vem do tempo em que nem se sabia o que era o mundo digital, onde hoje fica tudo disponível mesmo em dia de reflexão.
Para mim, o dia de reflexão das eleições vale zero. E por isso, vou refletir, neste espaço, sobre o que merece ser refletido, no meu entendimento claro está. E o que merece ser refletido é muito mais sobre o que somos, que é pouco, mas também sobre o que temos de valores, que é ainda menos. Sem generalizar, acontece na generalidade.
A notícia é impactante, dolorosa do ponto de vista do mundo que estamos a construir, um mundo em que o umbigo é maior do que o universo de vida, em que cada um por si é superior à visão de sociedade, que deveria ser global, solidária, apelativa do todo para o bem de cada um. Morreu um conhecido fotógrafo suíço, de 85 anos de idade. E como morreu René Robert? Depois do jantar, decidiu dar um passeio por uma rua de Paris, onde a dado momento, dizem que pelas 21 horas, caiu, desmaiou e ali ficou, vivo mas sem se poder mexer. Esteve assim durante 9 horas, ao frio que nesta altura é mortal, sem que alguma das pessoas que por ali passaram, e não eram poucas, parasse 30 segundos para ver o que se passava. Morreu, não se esperava outro final. Em Paris, não faltam sem abrigo no chão, dizem muitos, como se isso fosse desculpa para o que se passa, na essência, na sociedade. Sem tempo. Curiosamente para si e para os outros. Começa aqui a insensibilidade de indiferença do eu, o resto não faz diferença.
Este episódio remete-nos para uma reflexão sobre a nossa vida coletiva nos diferentes contextos. No trabalho, na família, na visão que (não) existe de vivência em comunidade, onde a forma de organização, através dos condomínios, é a expressão mais visível dos comportamentos que nos remetem para um "terceiromundismo" de povo inferior. Inferior de respeito, de valores, desprovido de qualquer sentido de responsabilidade. Uma amostra do que somos como sociedade e a forma como estamos a formar gerações, também elas, de um modo preocupantemente geral, indiferente a quem cai e como cai, mas sobretudo indiferente a quem, caindo, consegue levantar-se sozinho e pedir socorro.
Quando paramos para refletir nas sociedades, muitas, damos com elas em pedido de socorro. E uma sociedade que pede socorro, não faz escolhas para a comunidade.
Um resto de bom dia de reflexão...



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