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  • Henrique Correia

Jogar Local, pensar Regional


Francisco Gomes dá expressão pública ao que muito provavelmente pensam as bases e algumas cúpulas no PSD-M: "As eleições decidem o próximo presidente do partido e candidato à presidência do governo regional".




Estas eleições autárquicas de 26 de setembro, já aqui refletimos, vão ditar muito mais do que o poder na principal Câmara da Região. Afinal, foi dali que saiu o atual presidente do PSD-Madeira e do Governo Regional, foi ali que Miguel Albuquerque ganhou estofo de vitória para liderar a alternância que internamente começou a ser desenhada para a saída de Alberto João Jardim. Foi dali que saiu Paulo Cafôfo, para a liderança do PS-M e para um patamar de resultado histórico dos socialistas que quase cumpriam o objetivo previamente definido de retirar o poder ao PSD, um partido de vitórias absolutas anteriores. Só que apareceu o CDS disposto a quase tudo.

No seio do PSD Madeira, o momento até pode ser de unidade à volta de um interesse superior, a eleição de Pedro Calado. Mas é também de mobilização para o que poderá acontecer no futuro, até da própria liderança.

Por estes dias, um pouco ao encontro do que sugerem alguns setores "laranja", estes ainda que em surdina por razões óbvias de medição de riscos de opinião, foi pela voz de um social democrata, mais resguardado da política ativa, mas comentador atento, também da realidade social democrata, que pudemos ler o que se joga nestas eleições locais. No fundo, ir a votos local para ganhar balanço regional. Falamos de Calado, simultaneamente uma aposta e um "tiro no pé" de Albuquerque. Se Calado ganhar, Albuquerque ganha a batalha mas pode perder a guerra, a da liderança do proprio partido.


Francisco Gomes fala do CDS e do alinhamento excessivo com o PSD (que, para muitos, tem custado ao CDS a sua individualidade política).


Francisco Gomes, em entrevista ao Tribuna, expressa o que pensam alguns setores do partido: "Para o PSD, as eleições valem por três aspectos, e, uma vez mais, o Funchal assume uma importância especial no xadrez estratégico dos sociais-democratas.

Primeiro, as eleições decidem o próximo presidente do partido e candidato à presidência do governo regional. Por razões óbvias, Pedro Calado tem rejeitado esse cenário e afirmado repetidamente que cumprirá o mandato até ao fim. É a resposta que se impõe e a maneira de evitar que se crie um debate em torno da pessoa escolhida para vice-presidente, algo que o partido quer evitar a todo o custo pois é uma discussão que acarreta desconforto interno. Todavia, em caso de vitória, Pedro Calado não terá muito alternativa que não liderar uma outra candidatura do PSD, desta feita à presidência do governo, até porque, nesse contexto hipotético, não haverá ninguém melhor posicionado para o fazer. Ele sabe disso, os militantes sabem disso e até aqueles que, dentro da comissão política do partido, têm outros interesses, também sabem disso".

Segundo, as eleições testam a solidez do actual governo, que será privado da sua peça central. Porque não falta assim tanto do mandato para cumprir, não antevejo grandes turbulências, mesmo em caso de derrota no Funchal. Mas, mesmo assim, é um desafio que o partido que sustenta o governo terá de saber vencer.

Terceiro, as eleições são, possivelmente, o maior teste ao paradigma que foi instalado dentro do partido após a saída de Alberto João Jardim. Caso vença, o partido ganha o seu futuro líder e natural candidato a líder do governo, por um lado, e, por outro lado, cimenta, de vez, o domínio interno do projecto eleito em 2015. Caso perca, o actual executivo sai naturalmente fragilizado, quer politica, quer moralmente, e o partido poderá estar novamente exposto ao tipo de quezilas internas que conhece demasiado bem, mas que, desta vez, poderão ser ainda mais ácidas, pois incidirão sobre uma militância desmotivada por um possível triplo fracasso na capital da Madeira".

É verdade que Albuquerque está mais ou menos como aquela canção de Ney Matogrosso "se correr o bicho pega

Se ficar o bicho come", numa clara posição de dar "corda" ao possível seu sucessor sem colocar em risco a sua liderança. Não se pode ter o melhor dos dois mundos. Pior, pior, só mesmo Rui Barreto, liderando um partido "muleta", que se escuda no PSD para evitar um possível descalabro de una ida às urnas sozinho .

Francisco Gomes, nesta entrevista, coloca, também, o dedo na "ferida": "Não tenho dúvida que o CDS é o partido que mais tem a perder nestas eleições. Até certo ponto, esses riscos estão camuflados pelo facto de que, em muitos concelhos, o partido não vai a votos sozinho, mas sim em coligação com o PSD. Isto possibilita à liderança do Rui Barreto escamotear ou, pelo menos, dividir as responsabilidades de eventuais maus resultados. Por isso, de certa forma, a coligação até é útil a quem hoje manda no partido.

Porém, para muitos militantes, é claro e inquestionável que os resultados do sufrágio, se não forem claramente favoráveis ao partido, poderão ter implicações muito sérias para a sobrevivência política do CDS ou, pelo menos, para a viabilidade da sua actual direcção. Muito mais do que pelo que vai acontecer em Santana, onde a vitória é praticamente certa, é pelo que se vai passar no Funchal e noutros círculos eleitorais onde o CDS estará mais exposto que os militantes irão avaliar que peso social é que o partido ainda tem e inferir sobre a estratégia montada pela sua Comissão Política".

E não se fica por aqui nos pormenores de avaliação: "Como é publicamente sabido, essa estratégia não tem sido unânime. Aliás, nas opiniões que são expressas pelos militantes, especialmente em círculos mais privados, o partido tem revelado problemas sérios. Entre esses problemas estão um alinhamento excessivo com o PSD (que, para muitos, tem custado ao CDS a sua individualidade política), um certo deslumbramento com as responsabilidades governativas assumidas (que tem sido expresso, por exemplo, na postura individual e política de alguns dos seus militantes mais destacados), uma acumulação de casos internos que são deveras infelizes e que nada têm a ver com os valores do partido e, por fim, alguma dificuldade em gerir certa dissidência interna que, fruto de tudo isto, e de forma natural, tem aparecido".

Relativamente ao PS, o cenário não é muito diferente, segundo Francisco Gomes: as eleições "são um teste à identidade do partido como partido de poder, algo que é particularmente verdade no que toca às eleições para a Câmara do Funchal. Caso ganhe, o PS prova que soube manter o poder tão bem quanto o soube ganhar e que consegue liderar um projecto eleitoral vencedor contra um candidato adversário forte".


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